É verdade que há sinais positivos no Brasil, e não são poucos. Mas o futuro próximo pode embaralhar tudo de novo. 

O Brasil fecha 2017 com outro ânimo, ninguém pode negar. Após um crescimento nulo em 2014, contrações seguidas do PIB de 3,8% e 3,6% em 2015 e 2016, respectivamente, de chegar a ter uma taxa de desemprego de quase 13%, e ver sua taxa de investimentos cair a quase zero por dois anos, o país já não vive o pior da recessão.

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Com um ano mais de governo, o presidente Michel Temer conseguiu estabilizar a economia, mas é impopular e pode dar lugar a uma opção populista. Foto / Beto Barata

Muita coisa já mudou. Com a queda da taxa básica de juros do Banco Central (7,25% ao ano no fechamento desta edição), o controle da inflação e a estabilização das expectativas, começou a surgir uma pequena coleção de boas notícias.

Em setembro, as vendas do comércio varejista subiram 6,4% interanuais. A população ocupada no terceiro trimestre cresceu 1,6% frente o mesmo período do ano anterior (cerca de 1,5 milhão a mais de pessoas ocupadas).

No que diz respeito à construção, notam-se sinais de reativação do mercado imobiliário, com crescimento interanual de 69% no valor geral de venda (VGV) de seis das maiores empresas do ramo. O VGV corresponde a quanto as empresas incorporadoras imobiliárias têm à disposição do mercado para venda, e seu crescimento indica que os lançamentos voltaram a acontecer.

A tendência otimista se confirma pela expectativa de crescimento para o ano. O índice do Banco Central, o IBC-Br, registrou sua terceira taxa positiva consecutiva: 0,58% no terceiro trimestre, depois de 0,39% no segundo e 1,1% no primeiro, sempre em comparação com 2016.

Finalmente, a maioria dos agentes econômicos prevê para este ano um crescimento de entre 0,4% e 0,9%, enquanto para 2018 importantes bancos apostam em crescimento mais consistente. O Bradesco prognostica, por exemplo, 2,8%, e o norte-americano Goldman Sachs calcula 2,7% para o país no ano que vem.

Dúvidas

Para aumentar o clima de bonança após a tempestade, os planos de infraestrutura do governo federal têm conseguido relativos avanços. A última novidade foi o anúncio de um programa de obras públicas que visa finalizar projetos que foram paralisados em algum momento da crise da dívida pública. O programa Avançar tem um orçamento confirmado de R$ 130,9 bilhões para conclusão de 7.439 obras.

A lista tem de tudo: 57 obras rodoviárias, duas ferroviárias, 16 recuperações de aeroportos, 11 obras portuárias, 50 obras de saneamento, 150 mil unidades do Minha Casa Minha Vida, além de dezenas de obras em escolas, centros esportivos e unidades de saúde pública.

Qualquer um que acompanhe a história do Brasil sabe, no entanto, que as promessas podem ser muitas, mas as entregas poucas. Para evitar isso, o governo promete ter tudo, ou ao menos uma fase de cada projeto, terminado a fins de 2018. O objetivo é terminar obras, em lugar de começar novas.

Faz sentido, inclusive porque o programa PPI, anunciado como uma grande iniciativa de PPPs de infraestrutura e privatizações, avança lentamente devido à sua natureza mais complexa. Até o momento, este programa conseguiu de concreto as bem-sucedidas concessões de quatro aeroportos, a volta dos leilões de campos de petróleo, e o anúncio da privatização da estatal Eletrobrás. Mas é improvável que toda sua enorme lista de iniciativas avance de maneira significativa no pouco que resta a este governo.

A grande dúvida que pesa sobre a maior economia da América Latina é mesmo a de sempre: o que será de nosso futuro político? (ver box).

Dependendo do que aconteça nas eleições de 2018, o Brasil pode ficar novamente embaralhado nas políticas estatistas e populistas. No que toca a construção, a reconfiguração do setor pode ser impactada por decisões que poderiam paralisar as reformas estruturais e trazer de volta ao país a era dos subsídios irresponsáveis.

Assim, o momento atual conjuga sentimentos contraditórios: por uma parte, é justo celebrar alguma recuperação econômica, fruto de esforços fiscais e iniciativas corretas; por outra, a continuidade disto está condicionada às urnas em 2018.

Mudança cultural

Anhembi

Entre as mais de 7 mil iniciativas do programa Avançar, está a recuperação do centro de convenções Anhembi, em São Paulo.

Ocorre, porém, que a visão de profissionais do setor, que sempre enxergam além, consegue perceber problemas em geral ocultos.

É o caso do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, que em entrevista à CLA falou de aspectos menos considerados, mas de potencial explosivo para a retomada da infraestrutura no país. A enorme burocracia brasileira.

“Quem trabalha no dia a dia da construção sabe que se um fiscal aparece no seu canteiro de obras e resolve dizer que seu elevador de obra não está adequado, ele interdita a obra e não há superior que libere”, critica ele.

O representante setorial clama por uma mudança cultural, que sabe ser lenta e gradual, mas necessária. E exemplifica com detalhes os problemas vividos pela construção brasileira diariamente. “Não se pode embargar uma obra porque o tipo de caminhão que está no canteiro não é igual ao que estava especificado na licitação inicial”, diz.

Sobre o recente leilão de poços de petróleo (setor que tem potencial de destravar muitos investimentos no Brasil e gerar um significativo movimento econômico), Martins critica a questão das licenças ambientais. “Este recente leilão foi o mais bem-sucedido e o mais frustrante da história. Bem-sucedido porque os poços leiloados obtiveram o maior ágio já registrado. E frustrante porque grande parte dos campos não teve interessados. Qual a diferença entre um grupo e outro? Alguns tinham licenciamento ambiental, outros não”.

De acordo com o presidente da CBIC, há casos de empresas que desde 2011 ganharam concorrências para exploração de petróleo no Brasil e ainda hoje aguardam o licenciamento ambiental.

“Quem vai investir no país sob estas condições? Os investidores não têm este tempo, basta pensar no custo desse capital. Isso é o que eu venho conversando com o governo. Vamos ter dinheiro porque a taxa de juros caiu, os programas de obras estão andando, as existem fatores estruturais que devem ser encarados. É uma mudança cultural que deve ser agilizada para que se destrave tudo, e o país possa realmente se desenvolver”, afirma.

Martins relaciona este problema com a tão comentada chegada das construtoras internacionais ao Brasil, após a crise das grandes construtoras tradicionais que se envolveram em corrupção e têm seu futuro incerto. “As construtoras multinacionais estão de olho no Brasil sim. Mas não são malucas. Elas conhecem as dificuldades do mercado brasileiro. Creio que se pode dizer que estão em compasso de espera, conscientes do potencial do país e das suas necessidades, mas também muito preocupadas com estes problemas”.

Por tudo o que foi dito, o máximo representante das construtoras brasileiras confia que o atual momento é mais sadio do que o vivido nos anos anteriores. Reconhece que os esforços macroeconômicos são positivos e têm resultado, além de perceber vantagens em programas como o Avançar e nas concessões e privatizações de infraestrutura. Mas perguntado se considera que o país está se recuperando, diz: “só posso dizer que acho que sim”.

 

Na política, segue o jogo.

Meirelles

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, seria uma opção segura para o Brasil em 2018.

A enorme reestruturação das forças políticas brasileiras segue em processo, o que deixará um cenário obscuro por algum tempo ainda, ao menos até que as eleições de outubro de 2018 apontem o rumo do futuro.

Até seu último dia, o governo de Michel Temer tentará preservar sua agenda de reformas macroeconômicas que ajudem a trazer melhores condições de produtividade à economia. O maior desafio é a reforma da Previdência pública. O que já seria uma batalha complicada virou, depois das duas denúncias contra o presidente no caso Joesley Batista, um trabalho de Hércules. A maioria parlamentar parece ter diminuído muito.

Nas ruas, o generoso sistema previdenciário brasileiro, principal fator de crescimento da dívida pública, tem hordas de defensores. Em consequência, a classe política tem cada dia menos disposição de contrariar tanta gente e arriscar sua reeleição. O que quer que se aprove, se é que algo se aprova, deverá ser insuficiente.

Mas o mais importante é mesmo o que vem depois.

Caso escape da Justiça e conseguir sair candidato, Lula tem sérias chances de ganhar, e é unânime entre economistas que isto seria mal para a economia.

Já o militar reformado Jair Bolsonaro recolhe importantes promessas de voto ali onde a sociedade já perdeu esperanças de qualidade de vida devido à violência urbana. Mas seu discurso endurecido e extremista não esconde sua ignorância absoluta sobre economia, verificada em seu histórico de votos contra as reformas modernizadoras no Congresso Nacional.

Enquanto isso, o PSDB continua buscando um nome viável que possa ocupar o centro pró-mercado. Mas sua guerra interna entre as facções de Geraldo Alckmin e João Doria, e os efeitos da derrocada moral de Aécio Neves, comprometem o partido.

Uma plêiade de outros nomes aparece todos os dias. A ex-senadora Marina Silva, o senador Álvaro Dias e o ex-ministro Ciro Gomes são políticos tradicionais, mas nenhum com força política suficiente até o momento. Talvez quem tivesse mais chances, dada relativa recuperação econômica, seria o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de quem se cogita candidatura, sem jamais se confirmar.

O vazio é tão pronunciado que a ideia de lançar Luciano Huck, pelo menos até o fechamento desta edição, era levada a sério por muitos e nas pesquisas seu nome estava crescentemente bem avaliado.

O que é certo até agora é que, daqui até as eleições presidenciais, um período de incertezas relativamente fortes ainda nos aguarda.

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