O novo presidente da ABCP comenta o rumo futuro do mercado cimenteiro do Brasil, e aposta na eficiência do setor. 

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Paulo Camillo Penna é o novo presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland, a histórica ABCP. Ao assumir esta posição, junto à presidência do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), o executivo se torna uma pessoa de suma importância para o sonhado momento de recuperação do maior mercado de cimento da América Latina.

Ao aceitar receber Concreto Latino-Americano para uma entrevista exclusiva na sede da ABCP, Paulo Camillo foi aberto e conversador, buscando fornecer um panorama completo para a compreensão do estado atual desta indústria. Uma indústria que, ao mesmo tempo que tem papel fundamental para o desenvolvimento, está severamente afetada pela crise econômica que derrubou os números da construção.

Números

O presidente da ABCP embasa seus argumentos na história da indústria. “Entre 2004 e 2014, o Brasil viveu seu período mais exuberante para a indústria do cimento. Dobramos nossa demanda de 35 milhões de toneladas anuais para o recorde histórico de 71 milhões de toneladas em 2014. Passamos a ser o quarto maior consumidor de cimento no mundo, superados só por Estados Unidos, Índia e China. No período, se construíram 40 novas fábricas de cimento, passando de uma capacidade de produção de 60 milhões de toneladas para 90 milhões”, conta ele.

“Pouco antes da crise, novas fábricas haviam iniciado sua construção, e assim, em 2014 incorporamos 10 milhões de toneladas à nossa capacidade em plena crise. Então, com uma capacidade de 100 milhões de toneladas por ano, tivemos uma queda de 9,5% em 2015, caímos mais 12% em 2016, e em 2017 houve nova queda de 6,7%. Hoje, temos 47% de capacidade ociosa, o que de nenhuma maneira orgulha a indústria”, diz.

A luz no fim do túnel parece estar visível em 2018. A expectativa de Paulo Camillo é voltar ao azul este ano, com um crescimento estimado entre 1% e 2%.

“Isto será um enorme esforço, que não ocorre em função da infraestrutura, e sim tem relação com a construção comercial e residencial. É interessante assinalar que, em seu melhor momento neste século, 25% da produção da indústria cimenteira do Brasil se destinaram à infraestrutura, e os 75% restantes às edificações. Hoje, estamos com 90% em edificações, e graças a elas a queda está se freando”, esclarece Camillo.

Ainda que hipoteticamente o mercado de grandes obras voltasse com força, o principal executivo do setor cimenteiro nacional não acredita que este mercado absorva porcentagem muito maior do que antes. “Me arriscaria a dizer que com um programa de infraestrutura que realmente atendesse as necessidades, poderia haver um equilíbrio entre os dois segmentos de mercado. Mas há que se considerar que uma grande hidrelétrica consome 700 mil toneladas de cimento; um estádio de futebol consome 100 mil toneladas. Mas estamos falando de um país que em 2014 produziu 71 milhões de toneladas. Eu diria que foi uma pulverização de obras, com programas de moradia social, muitas pequenas obras públicas e as edificações o que gerou o crescimento desta indústria nos últimos anos”.

Prioridades

A gestão de Paulo Camillo na ABCP estará marcada por um esforço de recuperação. O ponto positivo é que a indústria cimenteira brasileira está, hoje em dia, em linha com os maiores avanços no mundo.

Das 100 fábricas instaladas no país, apenas uma continua funcionando por via úmida (método antigo que insere clínquer úmido no forno, gerando mais consumo de energia na moenda). Mas a indústria tem hoje 13 fábricas totalmente paradas. Delas, seis estão no estado de São Paulo, maior centro consumidor.

A contribuição da ABCP para esta recuperação é, entre outras, seguir com as capacitações profissionais e desenvolver o que Paulo Camillo chama de “ecossistemas da cadeia produtiva”.

“Esta estruturação de ecossistemas da cadeia produtiva, agora transformadas em plataformas digitais, segue e será incrementada, com projetos como Comunidade da Construção, o Grupo Paredes de Concreto, o projeto Vias Concretas, Soluções para as Cidades e outros. Sem deixar nada de lado, entretanto, merecerá atenção especial o setor de vias, o que supõe o tanto pavimento urbano como as rodovias”, diz.

O trabalho institucional da ABCP ao longo dos anos em favor do pavimento de concreto vem dando resultados. No Brasil, a porcentagem de vias pavimentadas é de cerca de 12%, e dentro deste número, a utilização do concreto subiu de 2% para 4% nos últimos anos.

“Para um país que tem no transporte de commodities uma de suas grandes fontes de riqueza, não nos parece adequado ter uma hegemonia tão pronunciada da pavimentação asfáltica. Existe uma vocação para cada modelo, mas hoje isto está desequilibrado”, afirma Camillo.

De acordo com o executivo, o trabalho é mais complexo do que só demonstrar vantagens. Camillo está em constantes diálogos com o Senado Federal para que se votem alterações legais que, caso ocorram, fariam com que os projetos de pavimentação considerassem não só custos de implementação, mas também de manutenção. “Sabemos que uma estrada em asfalto precisa de manutenção em cinco anos, enquanto o concreto durará 20 anos antes de manutenções”, diz.

Meio ambiente

Outro ponto fundamental de sua gestão será o das emissões. Em média, as cimenteiras emitem 5% do CO2, mas devido a práticas de substituição energética, as empresas do Brasil emitem apenas 2,6%, proporcionalmente.

“Isto fala de uma alta ecoeficiência”, diz Camillo. O executivo lembra que a ABCP vem trabalhando no Cement Roadmap, iniciativa mundial de controle das emissões a partir de quatro pilares: captura de carbono, substituição energética, aditivos para cimento e eficiência energética.

Para promover uma produção ainda mais correta, a ABCP trabalha para modificar a norma brasileira de cimento Portland, a fim de permitir que novos elementos reduzam ainda mais a utilização de clínquer na composição do produto.

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