O debate na região deve se focar na construção informal, principal causa de impactos ambientais, sociais e econômicas.

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Construcción formal es el principal criterio de sustentabilidad en América Latina.

À raiz da cúpula COP 21, em que diferentes líderes mundiais concordaram trabalhar pela redução dos gases de efeito estufa, e se assinaram compromissos específicos por parte de vários países, veio se discutindo em nível local os aportes e contribuições do setor da construção em tal panorama.

Embora a sustentabilidade seja um termo relativamente novo, é frequente que ainda se confunda simplesmente com o controle ambiental, esquecendo-se dos aspectos econômicos e de desenvolvimento que sua definição pressupõe. Vejamos algumas realidades regionais do setor de construção, para entender como o concreto usinado deve ser visto nestes esforços de sustentabilidade.

Para começar, à diferença da Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Noruega, Finlândia ou Japão, a construção na maioria dos nossos países apresenta um altíssimo grau de informalidade, entendendo nisto o desenvolvimento de construções com pouco ou nenhum controle por parte das autoridades, sem o cumprimento de códigos de construção e sem um planejamento adequado.

Qualquer autoridade municipal sabe que regularizar uma construção informal e provê-la de serviços públicos pode chegar a custar muito mais a todos os contribuintes do que o que custa uma moradia formal, diante do que o aspecto econômico por si só já explica a necessidade de dar resposta a este problema. Mas, e o ambiental e o social?

Desperdícios

Vejamos: de acordo com um estudo realizado na Colômbia pelo Centro de Estudos da Construção e o Desenvolvimento Urbano e Regional (CENAC), uma moradia informal pode consumir o dobro dos principais materiais de construção que uma moradia formal, o que se explica não apenas pelo desperdício na elaboração de materiais no canteiro, mas também por perdas devido a roubos, armazenamento inadequado, projeto superdimensionado ou simplesmente por retrabalhos causados por mau planejamento.

Isto implica que as famílias que, por necessidade ou qualquer outra causa, têm moradias por este caminho, não apenas estão investindo muito mais dinheiro na compra de materiais, mas também estão arriscando seu investimento ao obter uma casa que possivelmente não oferecerá segurança estrutural, e que usa muito mais material do que o realmente necessário. Para não falar da incorporação de critérios de durabilidade ou vida útil, neste tipo de construções.

Agora, se entrarmos na análise das cifras do concreto, há países onde a utilização das formas industrializadas de concreto, como o dosado em central e o pré-fabricado, alcança apenas 4% ou 5% do uso total de cimento, enquanto na Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Noruega, Finlândia ou Japão, estes mesmos usos industrializados do cimento podem ocupar entre 75% e 95% do total. A própria China já na década passada advertiu o impacto da utilização de materiais sobre a sustentabilidade, e por isso, estabeleceu que todas as cidades de mais de 5 milhões de habitantes não poderiam fazer misturas artesanais, e teriam que utilizar concreto usinado em suas construções.

Uma empresa que produz concreto dosado em central – partindo do princípio de que ela é legalmente estabelecida e cumpre com as normas técnicas – evidentemente oferecerá uma melhor tecnologia de produção, desperdiçando menos insumos críticos como cimento, agregados e água, e em consequência gerando menos emissões de carbono. Além disso, uma empresa formal gera emprego, contribui com impostos e aporta à comunidade onde está.

Em resumo, se analisarmos a forma como se constrói quase a metade da América Latina, e a baixa utilização do concreto dosado em central na região, poderemos entender que a informalidade é na verdade o maior dos problemas de sustentabilidade dos nossos países neste ramo, e atualmente deveria ser o tema central de qualquer de nossos governos ao discutir a sustentabilidade na construção.

Iniciativas

Na Federação Iberoamericana de Concreto Pré-mesclado, entendemos esta realidade, e por isto estamos apoiando várias iniciativas. A primeira delas, que se iniciou na Colômbia, se chama “Compre Formal, Construa Legal”, com diferentes associações de materiais de construção, para criar consciência em toda a cadeia produtiva sobre a necessidade de apoiar a legalidade e a qualidade, incluindo, por exemplo, o uso de provedores de insumos legais e de laboratórios de prova de concreto credenciados.

A segunda iniciativa tem a ver com o a divulgação na América Latina dos avanços do Concrete Sustainability Hub do Instituto Tecnológico de Massachussets (MIT), naquele que pode ser o investimento mais importante da região em termos de pesquisa sobre a sustentabilidade dos usos de concreto, e que documenta aspectos tão cotidianos como a economia de combustível gerada por um pavimento de concreto quando é feito de forma adequada e durável.

A terceira iniciativa apoiada pela FIHP tem a ver com o Concrete Sustainability Council, em relação ao aproveitamento de uma nova certificação de fornecimento responsável (ver edição da Concreto Latino-Americano de março de 2018, seção Sustentabilidade), para que os países da região tenham uma ferramenta que lhes permita fomentar que pelo menos os programas de investimento público utilizem materiais de construção – neste caso o concreto – provenientes de fontes formais e sustentáveis. A FIHP será a operadora regional deste esquema.

Finalmente, no marco do Programa de Edifícios e Construção Sustentável da Ação Global para o Consumo e Produção Responsável das Nações Unidas (10YFP), está se desenvolvendo um piloto com a certificação mencionada acima para Panamá, Colômbia e Costa Rica, que inclui a ampliação do estudo realizado pelo CENAC também comentado acima, e que pode servir de suporte para os governos para a tomada de decisões no momento de cumprir com seus compromissos com a COP 21.

Em resumo, se queremos sustentabilidade na construção, temos que ir além de nos limitarmos a medir emissões ou qualidade de água, para promover, juntamente com nossos governos, um aspecto que verdadeiramente impactaria nossa região: a formalidade.

* Manuel Lascarro Mercado é Engenheiro Industrial, e desde 2007 é o Diretor Executivo da Federação Iberoamericana de Concreto Pré-mesclado, FIHP. Também é Diretor Geral da Associação Colombiana de Produtores de Concreto – ASOCRETO.

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