O pacote de investimento em infraestrutura e obras públicas apresentado pelo presidente do Chile, Sebastián Piñera, soma mais de US$ 20 bilhões a serem realizados até 2022. Há alguns meses, o próprio Piñera anunciou que seu plano era “manter o Chile em marcha”.

Para dar conta de compreender as implicações de alguns dos projetos que compõem este grande plano, a CLA conversou com a ministra dos Transportes Gloria Hutt, o ministro de Obras Públicas Alfredo Moreno e com o vice-presidente da Câmara Chilena da Construção (CChC), Jorge Letelier.

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“Em investimento direto são mais de US$ 14 bilhões, o que inclui projetos como a represa Chironta e a ponte sobre o canal de Chacao – o primeiro deste tipo na América Latina”.

Reconstruindo a economia nacional 

Vários fatores afetam o crescimento econômico de qualquer país, e um dos mais importantes é o nível de investimento em infraestrutura e o dinamismo deste setor, que além de gerar emprego e crescimento, tem forte efeito multiplicador no Produto Interno Bruto. “É necessário gerar investimentos e desenvolvimento econômico de novas atividades produtivas. Se eu injeto capital, possibilito que haja investimento para novos empreendimentos privados”, afirmou Felipe Ulloa, consultor internacional de infraestrutura diante do Conselho de Políticas de Infraestrutura do país. 

Desta maneira, dinamiza-se a economia através da geração de canais de produção. “Se o Chile tem a capacidade de garantir que a produção de suas regiões passe por esta infraestrutura e saia para o mundo, então os especialistas devem gerar os investimentos necessários e correspondentes. Se não existe, então os investidores não estão gerando estes empreendimentos. Esta é a relação que existe entre pôr recursos na infraestrutura, dinamizar a economia e crescer economicamente”, explica Ulloa. 

Na CChC, afirma-se que nos primeiros seis meses de 2019, os investimentos em construção acumularam uma alta de 4,6% com relação ao mesmo período de 2018. “O Índice Mensal da construção (Imacon) de julho registrou uma alta de 3,3% anual. Diante disto, mantemos nossa estimativa de que em 2019 o investimento em construção terá crescido 4,4% interanuais, impulsionado em grande parte pelos projetos da mineração”, afirmou Jorge Letelier, vice-presidente da CChC. Nesta linha, a associação destaca o projeto Minerales Primarios da empresa Spence, com investimento de US$ 2,5 bilhões, e a expansão das operações da mina Los Pelambres, por cerca de US$ 1,3 bilhão. Sem contar o projeto de Quebrada Blanca Fase Dois, cujo investimento é de cerca de US$ 4,7 bilhões, onde se espera que mais atividade ainda seja gerada entre 2020 e 2021. 

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A CChC coloca como prioritário o projeto de Las Leñas como alternativa ao Paso Los Libertadores, conexão com a Argentina que hoje está colapsada.

“Para 2020, as perspectivas de investimento setorial continuam favoráveis, mas com incerteza em relação aos processos de aprovação de investimentos e regulações ligadas à execução dos projetos, como a reforma tributária, a falta de certeza jurídica ou eventualidades com licenças e permissões. Dado o anterior, estamos vendo como cenário base um crescimento anual de em torno de 4%”, sentenciou Letelier. 

Além disso, o MOP do ministro Alfredo Moreno revela que “está trabalhando em um planejamento estratégico de infraestrutura rodoviária para o ano de 2050, pensando nas necessidades do nosso país e nas projeções de desenvolvimento. Isto está sendo trabalhado e será divulgado nos próximos meses, mas a ideia é ter uma rede de transportes integrada, com rodovias, ferrovias, meios marítimos e aéreos”.

O plano está em marcha 

O plano não é possível sem uma suculenta carteira de projetos de infraestrutura. O Ministério dos Transportes está mobilizando uma série de iniciativas, entre as quais destaca-se a extensão do metrô, que prolongará sua rede de 140 para 214 quilômetros com três novas linhas. O projeto prevê a maior expansão do trem urbano de Santiago em toda sua história, e implica investimento de US$ 7,43 bilhões. 

Também no setor ferroviário, avança o projeto “Chile sobre trilhos”, que busca reposicionar o trem como meio de transporte no país. Ali, destacam-se projetos do chamado Metrotren (trem conectado ao metrô), que se estenderá até a região da Araucanía. Mas também se conta a extensão do metrô de Valparaíso, os projetos ferroviários da região de Bio Bio e a construção de uma ponte ferroviária sobre o rio Bio Bio. “São 28 projetos ferroviários que estariam em operação já em 2027, e significam um investimento de US$ 5,57 bilhões”, comentou a ministra Hutt. 

A construção da linha 7 do Metrô de Santiago terá o desafio de ser a mais profunda de toda a rede de estações, a mais de 45 metros abaixo da superfície. Ali, vários trechos serão construídos com “tecnologias similares às do Canal da Mancha e as usadas na mineração”, diz Gloria Hutt. Serão utilizadas tuneladoras do tipo TBM (tatuzão) que impactam menos a superfície enquanto trabalham sob a terra. “Este tipo de obra permite processos até três vezes mais rápidos e possibilita o trabalho remoto, como a contenção de muros quando se instala o revestimento definitivo feito de concreto pré-fabricado enquanto se avança no túnel”, diz a ministra. 

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Ministra dos Transportes, Gloria Hutt

Trabalha-se também no Porto de Grande Escala de San Antonio, para a zona central do Chile, região que é 63% do PIB, além de também consumir 63% das importações. “Esta é uma obra de grande envergadura que prevê um investimento aproximado de US$ 3,3 bilhões em um prazo de cerca de dez anos, com obras de abrigo, terminais, última milha viária e ferroviária. Estamos abordando este projeto de forma integrada entre porto e ferrovia, para contar com um corredor logístico de alto padrão”, explica Hutt. 

Em outra linha, Moreno afirmou que está sendo implementado um plano que envolve US$ 4 bilhões de investimentos este ano e US$ 22 bilhões entre 2018 e 2022, com a criação de 70 mil empregos por ano e 240 mil no total. “Em investimento direto são mais de US$ 14 bilhões, incluindo projetos como a represa de Chironta e a ponte sobre o canal de Chacao – a primeira deste tipo na América do Sul. Além disso, temos uma carteira de licitações em concessão por cerca de US$ 14 bilhões, incluindo aí autoestradas, hospitais, sistemas de bondes e teleféricos, represas e aeroportos, entre outros projetos”. 

Em agosto, o Ministério de Transportes lançou o Plano Mestre da Macrozona Norte, que contém 53 iniciativas estratégicas com investimento associado de US$ 4,53 bilhões, mirando o ano de 2037 e buscando melhorar a eficiência do setor e a competitividade do Chile no comércio exterior. 

Ao mesmo tempo, o país olha para o alto, com a ampliação e melhoramento de sua rede de aeroportos, entre eles o de Santiago, que recentemente inaugurou um novo terminal e se preparada para abrir mais um amplo e renovado terminal já no ano de 2021. “Isto se reflete no fato de que hoje viajar de avião está democratizado, e a taxa de crescimento de passageiros no Chile cresce a 10% ao ano”, afirmou Hutt. 

Por sua vez, Moreno destacou vários outros projetos em execução, que vão continuar trazendo desenvolvimento ao Chile. “Já está em marcha o projeto da Autopista Vespúcio Oriente, que vai fechar o anel viário da cidade; a estrada paralela à Ruta 5 é uma iniciativa de longo prazo que busca conectar todo o Chile e prevê melhorar a resiliência da infraestrutura do país. Que a infraestrutura seja resiliente nos permite ter opções de deslocamento frente possíveis problemas nas rotas principais”, diz. 

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O Plano Mestre Logístico da Macrozona Norte contém 53 iniciativas estratégicas com investimento associado de cerca de US$ 4,53 bilhões.

Enquanto isso, a CChC destaca os projetos que podem contribuir para o desenvolvimento do país. “Duas vias paralelas à Ruta 5, uma pela costa e outra pelo pré-cordilheira; a grande quantidade de trens urbanos, interurbanos, Metrotren e outros projetos ferroviários que aportam à conectividade; a Passagem Las Leñas como alternativa à Passagem Los Libertadores, que hoje colapsa nosso contato com a Argentina; e a extensão da Rodovia Austral de Puerto Montt a Villa O´Higgins para avançar na integração territorial do Chile”, enumerou Letelier. 

Todos os projetos, para ele, têm algo em comum: “são transformadores, ampliam as possibilidades de desenvolvimento do país e a qualidade de vida dos cidadãos. Ao mesmo tempo, dada a localização geográfica do Chile, são fundamentais para melhorar as condições de competividade do país. Desde o ponto de vista do setor de construção, é evidente que a execução destes grandes projetos de infraestrutura contribui para a dinamização do setor, e portanto, geram um efeito multiplicador para toda a economia do país”. 

Aspectos a melhorar 

A CChC sustenta que há que se reforçar a capacidade de gestão para a execução dos projetos. “É necessário contar com um mecanismo eficiente de resolução de controvérsias e cláusulas de saída nos contratos; e criar a figura do gerente de projetos, que zele pelo correto desenvolvimento das iniciativas, desde o projeto básico até a entrega e início de operação. Além disso, na área de concessões é preciso reforçar e reorganizar os recursos profissionais de acordo com as atividades críticas”, argumentou Letelier. Neste sentido, o executivo advoga que a institucionalidade adote a projeção e validade no tempo dos projetos, “evitando que se tornem letra morta a cada vez que assume uma nova administração”.

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Está sendo implementado um plano que envolve US$ 4 bilhões de investimento este ano e US$ 22 bilhões entre 2018 e 2022, com a criação de 70 mil empregos por ano e 240 mil no total.

A ponte sobre o canal de Chacao “é uma obra que implica um grande desafio de engenharia de gestão de projetos, e representa um modelo no qual se podem aplicar várias das propostas da CChC, já apresentadas ao Ministério de Obras Públicas”, complementou o representante. 

Enquanto isso, a respeito da crescente escassez de água que assola o Chile, a CChC propõe continuar com os esforços de dessalinização da água do mar, “sobretudo porque estas tecnologias continuarão baixando seus preços”, diz Letelier. Ele complementa: “também há que continuar com a construção das represas que permitirão aproveitar 80% das águas que hoje se perdem no mar”.

No entanto, quando há excesso de água como aconteceu recentemente em algumas inundações, “espera-se que se cadastrem e priorizem as quebradas ao longo do país, segundo seus potenciais riscos para a população, e que se faça um Plano de Mitigação de Riscos Naturais que permita avançar na concretização das obras”, finalizou Moreno.

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