huracan dorian

Furacão Dorian foi o mais forte já registrado nas Bahamas.

Segundo estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), dezesseis dos trinta e cinco países mais vulneráveis a desastres naturais no mundo estão na região centro-americana e no Caribe. Estes desastres deixam uma marca em termos de desenvolvimento econômico e bem-estar, cuja superação pode levar décadas. 

O FMI estima que nas economias pequenas, sete anos depois de ocorrer um ciclone tropical (não um furacão de categoria 5, e sim um ciclone mediano), o PIB per capita no país afetado fica 2,5% menor do que o esperado caso não tivesse havido a tormenta. Os efeitos de um evento como estes são persistentes, e o FMI calcula que mesmo 20 anos depois de um grande furacão as economias não se recuperam totalmente. 

A probabilidade anual de um desastre natural por cada 1.000 km2 nesta região está entre as mais altas do mundo, e em países como Dominica e Granada os danos em média alcançam 118% e 74,8% do PIB, respectivamente. 

Em termos de bem-estar, os países vulneráveis a desastres naturais sofrem uma perda média a longo prazo com queda permanente de 1,6% no consumo, e têm dívida pública 1,54% acima dos países não vulneráveis, o que é um problema para a estabilidade financeira dos países. A diferença entre os níveis de crescimento dos vulneráveis a desastres naturais e os que não são é, pelo menos, três vezes em favor dos não vulneráveis. 

Historicamente, as crises geradas pela destruição das tempestades no Caribe foram enfrentadas com ajuda internacional pós-evento. Hoje se discute uma mudança neste modelo, para permitir que os países sejam mais resilientes aos efeitos das mudanças climáticas, para que quando chegue o próximo ciclone tropical a infraestrutura resista, a economia tenha salvaguardas e o país se recupere mais rápido.

Maior frequência e intensidade 

Nos primeiros quatorze anos do século 21, os ciclones tropicais causaram danos calculados em US$ 548 bilhões em nível mundial, impactando de maneira desproporcional as ilhas e as pequenas economias da região. Os dados mostram que a frequência e a intensidade das tormentas têm sido crescentes ao longo das últimas seis décadas para a região do Caribe. 

Em 2017, o Caribe foi afetado por duas tempestades de categoria 5, os furacões Irma e María, com seis ilhas registrando perdas maiores do que o equivalente a um ano de sua produção econômica. De fato, 2017 foi uma das temporadas mais ativas de ciclones tropicais na história do Atlântico, com 17 tormentas e dez furacões. Em Dominica, entre 70% e 80% das moradias e edificações sofreram danos em razão das tempestades de 2017, só dois anos depois do país ter perdido 90% de seu PIB pela tempestade tropical Erika. 

Em 2019, observamos a mostra mais recente dos danos catastróficos causados pelo furacão Dorian na região, totalizando, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, mais de US$ 3,4 bilhões em danos e perdas nas Bahamas, cujo sistema de arquipélago tem mais de 80% de sua terra cinco metros abaixo do nível do mar. Foi a tempestade de maior intensidade registrada no país, em termos de ventos e ressacas. O setor privado absorveu cerca de 90% das perdas totais, com os maiores danos nos setores de moradia e turismo. Os danos às moradias foram estimados em US$ 1,49 bilhão, e o dano ao turismo calculou-se em US$ 529 milhões. 

Caso Sint Maarten 

sint-maarten

Sint Maarten após a passagem da tormenta María, de categoria 5.

Os danos causados em 6 de setembro de 2017 em Sint Maarten pela passagem do furacão Irma somaram 250% do PIB, destruindo parte importante da infraestrutura de turismo. Antes da tempestade, o setor aportava 73% da entrada de divisas no país. O aeroporto sofreu danos pelos ventos que quase chegaram aos 290 km/h. E nas semanas subsequentes as tempestades José e María pioraram tudo com fortes chuvas que infiltraram suas paredes, levando a que em dezembro deste ano o aeroporto fosse declarado como área de risco. O resultado foi uma queda de 24% no turismo em 2017 e de 56% em 2018. 

Novos cálculos do FMI estabelecem que a economia se contraiu 17% entre 2017 e 2018. O custo da reconstrução é previsto em US$ 2,3 bilhões, com dois terços dos recursos requeridos imediatamente ou no curto prazo. A recuperação econômica dependerá justamente do ritmo de execução das obras de reconstrução, particularmente no setor de turismo e infraestrutura crítica. 

O setor de construção mitigou o impacto econômico com um crescimento médio de 5,8% anual por trimestre desde a passagem do furacão, e a importação de serviços de construção permitiu restaurar parte importante da infraestrutura básica. 

Como resposta aos danos das tempestades, o governo dos Países Baixos se comprometeu a facilitar € 550 milhões em fundos para a reconstrução e ajudas para o governo de Sint Maarten. Deles € 470 milhões estão sendo administrados sob um fundo especial do Banco Mundial, que ficou encarregado do manejo dos recursos e a coordenação, em conjunto com o governo, de priorizar projetos críticos para a reconstrução e recuperação econômica. 

Calcula-se que o PIB da ilha possa crescer 3% em 2020, supondo um progresso adequado na execução das obras do aeroporto e na reconstrução dos hotéis, o que contribui para o nível de atividade através da construção e setores conexos, assim como o turismo. 

Alguns projetos, identificados como prioritários, incluem: US$ 55 milhões para a reparação de moradias, melhora da resiliência da infraestrutura e no sistema de resposta a emergências; US$ 25 milhões para reparações e melhoras em hospitais e construção de um centro médico maior e mais resistente a furacões; e US$ 50 milhões para a reconstrução do aeroporto.

Medidas e recomendações 

A sustentabilidade depende muito mais do que só o fortalecimento da infraestrutura, e demanda um novo olhar sobre a estrutura econômica dos países do Caribe, a fim de reduzir sua vulnerabilidade em todas as frentes. Segundo o Programa Ambiental das Nações Unidas, o custo de se adaptar às mudanças climáticas nas economias em desenvolvimento fica entre US$ 56 bilhões e US$ 300 bilhões, antes de 2030. Isto é equivalente a entre duas e três vezes o financiamento atualmente disponível. 

Enquanto os países vulneráveis a desastres naturais podem investir em infraestrutura para melhorar seu bem-estar e resiliência depois dos eventos, dados do FMI mostram que o apoio internacional com financiamento ex-ante (antes do evento) em infraestrutura pública resiliente é mais efetivo do que após um desastre. O custo de financiamento da infraestrutura resiliente por meio de subvenções internacionais é menos da metade do custo de financiamento de intervenção e reconstrução após a ocorrência de um desastre. O FMI calculou que levar o investimento público em infraestrutura resiliente do 0% a 80% implicaria um aumento de 3% a 11%, proveniente das economias implícitas dos custos de reconstrução e do aumento sustentado da produção de bens e serviços. 

Adequar a infraestrutura implica preparações para que ela suporte as condições mais intensas: instalar sistemas de alerta e implementar códigos de construção e leis de zoneamento. É necessário forçar o cumprimento destas normas para reduzir os danos no futuro. Os países devem também assegurar o financiamento para enfrentar os efeitos das tormentas, através de fundos de desastres naturais, projetos de adaptação e mitigação de riscos com financiamento internacional. É necessário buscar novos modelos para aumentar a cobertura de seguros contra os danos às propriedades, reduzindo custos de reconstrução e distribuindo o risco. 

Enquanto os países da região não puderem reduzir sua exposição ao risco de enfrentar tormentas e ciclones tropicais, devem se preparar para os perigos que isto traz. Depois da tempestade, o setor de construção costuma ser o que levanta a economia, à medida que vai reparando os danos nos ativos físicos e na infraestrutura do país. 

Em seu documento “Building Back Better, achieving resilience through stronger, faster, and more inclusive post-disaster reconstruction”, o Banco Mundial calcula que reconstruir e melhorar a infraestrutura levaria a uma redução média de 59% nas perdas de bem-estar após as tormentas. Reconstruir melhor implica localizar as novas edificações fora de zonas de inundação, com estruturas projetadas para resistir à maior intensidade de ventos. Também significa fortalecer os sistemas elétricos, de água e transporte para que possam resistir. 

A base para reconstruir melhor se faz antes da tormenta, fortalecendo capacidade técnica de projeto, construção e controle de qualidade nos setores público e privado. Além disso, é necessário considerar planos de reconstrução de contingência e contratos pré-aprovados, preços e termos pré-acordados, ou a pré-qualificação de firmas. Finalmente, o ritmo de reconstrução é determinante na recuperação econômica e preparação ex-ante, para dar mais rápido acesso a financiamento, linhas de crédito e produtos de seguro que minimizem as perdas. 

OL Caribe não pode evitar a próxima ameaça natural, por isso é uma responsabilidade dos setores público e privado a construção de um cenário de resiliência. Se não o fizermos, seguramente pagaremos o preço.

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