A economia brasileira mostra sinais positivas e a recuperação é real, mas a eleição lança dúvidas. 

Backdrop

Finalmente se vê luz no Brasil. A recessão foi o pior momento em décadas, mas a recuperação é ainda incerta devido às eleições.

No momento, a sensação é positiva no Brasil. Um certo grau de otimismo voltou, deixando para trás um longo período de recessão e imbróglios políticos que pareciam sem solução. Há muitos senões, sem dúvida, mas não se deve deixar de aproveitar este primeiro bom momento em anos para, ao menos, respirar.

O PIB voltou a crescer em 2017, a uma taxa de 1%. Em valores absolutos é uma taxa pequena, sobretudo se a comparamos com a base de 2016 (-3,5%) e 2015 (-3,8%). Não obstante, em termos relativos um PIB de 1% no Brasil é um volume financeiro que serve para gerar expectativas importantes, e é por isso que muitos setores estão se reanimando aos poucos.

O campeão nacional é, como sempre, a agropecuária, que cresceu 13% em 2017, seguida pelas indústrias extrativas (mineração, agregados pétreos, areia etc.), com 4,3% e depois o comércio com 1,8%. A manufatura cresceu 1,7% e as atividades imobiliárias aumentaram 1,1% ao longo do ano passado.

Estes são os setores que cresceram acima do PIB, mostrando claramente quem foram os responsáveis pelo crescimento geral da economia.

No que diz respeito ao público da Construção Latino-Americana, a notícia é ruim se for lida em termos isolados. O setor de construção viveu em 2017 uma nova queda: perdeu 5% fruto de uma paralisia ainda forte em quase todos os subsetores da infraestrutura, como portos, aeroportos, grandes rodovias e a indústria de petróleo e gás.

Mas não se pode ignorar a reativação do mercado de compra e venda de residências e escritórios no país. Em 2017, a venda de unidades residenciais (novas e usadas) cresceu 9,4%, o que foi superior ao crescimento que também se verificou no nível de lançamentos de edifícios recentemente construídos (5,2%). Esta diferença implica uma diminuição do estoque de imóveis, e aponta para um novo crescimento da indústria imobiliária este ano. De fato, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) prevê um crescimento de 10% para este ano.

Macroeconomia

Tudo isto responde a fatores macroeconômicos. Para efeitos de comparação, em 2015 quando se vivia o pico da crise brasileira, a inflação quase saiu do controle ao chegar a quase 11% ao ano. Isto levou a que o Banco Central aumentasse a taxa básica de juros para 14,25%, e a manteve aí por mais de um ano. Agora a situação é diferente: a queda abrupta da demanda fez cair a inflação, que foi de 2,97% ao ano em 2017, enquanto o BC recuou a taxa básica para 6,75%, a mais baixa em duas décadas.

Este novo contexto trouxe de volta a capacidade de endividamento e investimento, o maior consumo das famílias e as expansões empresariais. Um efeito que está em linha com isso é a compra de imóveis, sempre dependente de créditos bancários.

O lado negativo é que o saudável momento que agora se vive no país é fruto da inércia das leis econômicas. O único elemento que mudou profundamente no governo de Michel Temer foram as expectativas de que os controles macroeconômicos não seriam abandonados. Das reformas estruturais prometidas pelo presidente após o impeachment, quase nada viu a luz da realidade.

Sempre que dependeu dos agentes políticos, a economia não recebeu ajudas consistentes. O Brasil continua tendo um sistema previdenciário que gera dívida pública galopante, um sistema tributário regressivo que cobra impostos do consumo mais do que da renda, um sistema administrativo com excessivo número de burocratas bem remunerados.

A conclusão é que, uma vez mais, a mudança de estruturas ficar para o futuro. E é exatamente o futuro a curto prazo que traz ao país novas incertezas, especificamente nas eleições presidenciais de outubro, cujos palanques já estão de público.

Eleições

O quadro não está claro e não estará até agosto, quando termina o prazo para o registro de candidaturas. Mas o que se avizinha desde já é uma eleição imprevisível.

Pivô fundamental das expectativas é a possibilidade (ainda existente até o fechamento desta edição) de que Lula seja candidato a presidente pelo Partido dos Trabalhadores, no caso de que sua condenação já lavrada pela Justiça em segunda instância não o leve à prisão e algum tipo de recurso lhe favoreça. Na hipótese de que não lhe seja vedada a candidatura, o ex-presidente aparece com um porcentual tão favorável (por volta de 30% em todas as pesquisas eleitorais até o momento), que a eleição talvez estivesse ganha de antemão.

Sem Lula, o mistério continuará até o fechamento das urnas.

Maia

Entre todos os que querem o cargo de Michel Temer, está o deputado Rodrigo Maia.

O cardápio é variado, com possibilidades inéditas como a candidatura de um ex-capitão do Exército com discurso de extrema direita. Jair Bolsonaro, no entanto, já mostrou desconhecer preceitos básicos de economia e sua posição oscila entre um nacionalismo que promete a auto-suficiência brasileira e um liberalismo mal explicado que agrada parte de seus seguidores, mas que ele próprio não desenvolve.

O centro está fragmentado, com ao menos cinco candidatos em disputa. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vai tentar de novo, e de fato seria bom para a economia, mas sua figura não é exatamente nacional. O deputado Rodrigo Maia lançou candidatura, com posicionamentos similares aos de Alckmin, mas é impopular.

O já conhecido Ciro Gomes sempre menciona o desenvolvimento econômico ao falar, mas põe forte acento positivo sobre o protecionismo econômico que tanto dano já causou ao país. Por fim, está a alternativa de Marina Silva, que tem histórico de liderança social na Amazônia, mas nunca se definiu muito bem na grande política.

Um pacote de outros nomes menos expressivos deverá aparecer, em chances de ganhar, mas certamente dispostos a vender caro seus apoios num provável segundo turno.

Este é o panorama até agora, e pode mudar com o passar dos meses. Algumas outras hipóteses a considerar são as possíveis candidaturas do atual Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o ex-juiz do STF Joaquim Barbosa.

Necessidades

Complicadas como estão as coisas na cena política nacional, no chão do país o drama dos problemas e necessidades é gritado com simplicidade absurda na cara dos políticos.

Continuamos sendo um país de dimensão continental com muitos lugares onde nem sequer há estradas pavimentadas. Uma economia industrializada que duplica o custo de sua operação em função de taxas e subsídios que não aliviam custos adicionais a estes oriundos de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos ruins ou inexistentes. Isto sem mencionar o torpe sistema educacional – que forma a mão de obra do futuro -, e a saúde pública – que cuida da mão de obra do presente.

Em qualquer fórum de debates do empresariado nacional, a precária infraestrutura volta a ser tema. Todos sabem que é um gargalo histórico e profundo. Mas por mais clara que seja a necessidade, o país não tem um marco legal que lhe permita se modernizar.

“O país tem que investir 3% de seu PIB para manter a estrutura que existe hoje, mas no ano passado, o que se investiu foi menos do que esta meta, 1,3%. Para que possamos crescer entre 4% e 5% ao ano é imperioso investir algo próximo dos 5% do PIB em infraestrutura, o que geraria 1,5 milhão de empregos”, afirma o presidente da CBIC, José Carlos Martins.

O jeito para que isso aconteça, na opinião do líder da construção brasileira, é pelas PPPs. Sem este esquema de investimento que é utilizado com sucesso em vários países da América Latina, o Brasil não sairá do atraso.

“As concessões municipais são uma grande oportunidade de negócio para as empresas do setor, principalmente as pequenas e médias, que podem executar muito bem obras de estacionamentos, infraestrutura de saúde e educação, iluminação pública e tantas outras coisas”, diz Martins.

O economista da CBIC, Luis Fernando Melo Mendes, faz coro ao afirmar que “sem uma infraestrutura robusta, que recupere o investimento nacional e ajude na competitividade, a recuperação não será nem completa, nem suficiente”.

 

Novo mercado de construção começa a aparecer

Sanchestrip

Em 2017, novas construtoras obtiveram a maioria dos contratos com o governo federal.

Os efeitos das investigações de corrupção que tomaram conta do noticiário no Brasil desde 2014, e que derrubaram o setor de construção, agora se fazem sentir numa reconfiguração do mercado de obras públicas.

Com os principais nomes da indústria de construção pesada fora do jogo, muitos previam uma mudança estrutural neste mercado, o que agora começa a se confirmar.

Em 2017, em lugar de construtoras multinacionais famosas, a empresa que mais recebeu verbas públicas para obras de infraestrutura foi a Sanches Tripoloni, que se especializou na construção de estradas de médio porte nos estados de São Paulo e Paraná em seus já 30 anos de atuação.

A Sanches Tripoloni recebeu em 2017, de parte do governo federal, R$ 506,1 milhões para serviços de adequação, manutenção e construção de rodovias. Em 2014, note-se, a empresa não figurava sequer entre as 10 maiores no recebimento de investimentos públicos, tendo recebido apenas cerca de R$ 200 milhões. Agora, a construtora quer entrar nos mercados do Paraguai e Peru, além de disputar grandes concessões rodoviárias no Brasil.

Em segundo lugar, surpreendentemente, está a Odebrecht, mas porque seu projeto tem a ver com um submarino nuclear que consome muitos investimentos, não tendo muito a ver com a construção pesada.

Em terceiro lugar ficou a LCM Construções, do estado de Minas, que com R$ 371,2 milhões recebidos em 2017 realizou manutenções rodoviárias. São seguidas por outras que estão em curva ascendente, como Castilho, Empresa Construtora Brasil, Serveng Civilsan, Paviservice, Neovia, Apia e Souza Reis.