O país centro-americano já não vive o boom da construção, mas pensa a longo prazo. 

CUARTOPUENTE

Assim será a quarta ponte sobre o Canal do Panamá, com ferrovia para um VLT.

Há poucos anos, o Panamá servia de bom exemplo para o desenvolvimento de infraestrutura para toda a América Latina. O país viveu um impressionante boom de grandes obras, marcado principalmente pela ampliação de seu histórico Canal naval, que finalmente concluiu seu terceiro jogo de eclusas e agora tem capacidade para servir o mercado internacional por muitos anos mais.

De fato, ainda continuam em desenvolvimento alguns investimentos associados à ampliação do Canal do Panamá, como por exemplo a Ponte Atlântico, que recentemente alcançou 90% de avanço e é uma das pontes viárias a cruzar o canal.

Vale a nota também o fato de que o Panamá é o primeiro país centro-americano a construir um metrô, e segue investindo em transporte urbano, já que até o fechamento desta edição a Linha 2 do sistema estava em fase de testes. Serão 16 novas estações conectando les e oeste da capital, dando mais capacidade de transporte à primeira linha, inaugurada em 2014, que tem 14 estações no eixo norte e sul.

A rede de transporte público da capital do Panamá inclui também a quarta ponte sobre o Canal, que finalmente foi licitado em julho deste ano, e será construída pelo valor de US$ 420 milhões pelo consórcio composto pela China Communications Construction Company e a China Harbour Engineering Company. Sobre esta futura ponte, passará uma ferrovia – além das pistas de rodagem – que será integrada à rede e será usada por um VLT.

Embora estes dados mostrem que ainda há atividade no setor, podemos reafirmar que ela já não está à altura do que era pouco tempo atrás. Bastará ver as estatísticas mais recentes: de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas e Censo do país, o PIB da construção registrou em anos recentes um nível excepcionalmente positivo em sua variação anual, mas este crescimento, mesmo mantido, perdeu muito ritmo.

Em 2009 o PIB da construção cresceu 3,3%, sendo seguido de 9,1% em 2010; depois houve um crescimento de 24,9% em 2011 e então um assombroso crescimento de 32,6% em 2012. Então o ritmo caiu para 26,7% de crescimento em 2013, em 2014 registrou-se 13,2%, em 2015 foram 12,7%, então 8,1% em 2016 e finalmente 5,4% em 2017.

Problema de luxo

Não se deve ignorar que qualquer comparação com o melhor dos casos latino-americanos nestes mesmos anos é absolutamente favorável ao Panamá, inclusive em seu pior momento. Poderíamos dizer que sua desaceleração em matéria de construção é um problema de luxo, dado que lugares com necessidades urgentes de grandes obras crescem no máximo a 5% na região.

STATION

Megaobras como a linha 2 do metrô continuam mantendo a construção do país em bom nível de atividade.

Mas tampouco deve-se esquecer que a América Latina tem um problema econômico e político estrutural com a instabilidade, e embora seja prazeroso o momento de forte crescimento, as quedas correspondentes costumam ser estrepitosas e problemáticas.

Em notícia recente na imprensa panamenha, o mesmo Instituto Nacional de Estatística e Censo do país afirma que o primeiro trimestre de 2018 registra queda de 48% na construção de obras privadas (essencialmente o mercado residencial).

Não obstante, este novo panorama da construção vem levando os trabalhadores da construção do Panamá a reivindicar sua parte na imensa produção de riqueza verificada nos últimos anos. Em abril deste ano, e por exatamente um mês, o Sindicato Unificado da Indústria da Construção e Similares (Suntracs) iniciou uma greve que suspendeu nada menos do que 266 projetos públicos e privados em execução no país.

Os trabalhadores pediam um grande aumento salarial de 60%, dividido em quatro anos, para todas as subcategorias. Finalmente, o acordo logrado com a mediação do Ministério do Trabalho entre o Suntracs e a Câmara Panamenha da Construção (Capac) deu aos trabalhadores um aumento de 14% para obras privadas (dividido em quatro anos), 18% para obras públicas (em quatro anos), e de 11% em quatro anos para megaobras.

Obviamente, tudo isto impactará nos preços dos contratos das empresas construtoras. Se a isto se agrega a valorização normal que períodos de crescimento acelerado produzem sobre mercados de alto valor como o residencial, temos a explicação para o novo panorama no Panamá.

Não por outra razão, o diretor da Capac Eduardo Rodríguez já percebe uma queda de 18% na compra de moradias familiares no primeiro trimestre de 2018, fruto do aumento já verificado nos preços. “O desenvolvimento residencial atualmente se concentra em moradias que estão entre US$ 75 mil e US$ 120 mil. Se nós forçarmos os novos custos nos clientes, muitos deles não terão a capacidade de obter uma moradia e sairão do mercado porque não poderão se qualificar diante dos bancos para obter uma hipoteca”, afirma Rodríguez.

A conjugação de todos estes fatores indica que de fato o tempo de crescimento ultra acelerado da construção panamenha deve ter passado. A questão, portanto, é mantê-lo ativo de maneira saudável, evitando que a desaceleração se torne uma recessão. Crescer a ritmo normal deveria ser o ideal de um país.

Objetivos

HUELGA

A greve da construção este ano contribuiu para aumentar custos setoriais.

Casos como o do Panamá deveriam nos fazer lembrar qual é o objetivo da construção. Trata-se de prover infraestrutura pública e privada que permita às sociedades viver com qualidade e desenvolver suas potencialidades em um espaço bem organizado. Os agentes privados que nisto trabalhem devem conseguir o melhor retorno possível de sua atividade e crescer, mas não ao custo de desorganizar o mercado.

E para evitar tanto o sobreaquecimento como a recessão, é fundamental manter a visão deste objetivo final: o desenvolvimento econômico e social.

A boa notícia é que o Panamá parece estar consciente disso. Como parte de sua Estratégia Nacional para o Desenvolvimento a 2030, o país está mobilizando o Plano Metropolitano 2035, iniciativa de reconfiguração territorial através de obras que deverão afetar positivamente diferentes áreas do país.

“O plano aposta em termos hubs de desenvolvimento, deixar de pensar que o centro tradicional é o que pode dar resultados, e em vez disso possibilitar que outros pontos da cidade e da região venham a ter mais estruturas para se desenvolver, fontes de moradia e de trabalho no mesmo lugar, diminuindo o tempo de viagem e dando mais qualidade de vida”, disse em um encontro com a Capac o vice-ministro de Ordenamento Territorial do Panamá, Juan Manuel Vázquez.

Este plano se baseia numa divisão territorial das zonas do país, prevendo variadas intervenções para cada uma delas: a sub-região Pacífico Leste compreende desde a capital até Pacora; Pacífico Oeste alcança Arraiján e La Chorrera; e a região Atlântico prevê o município de Colón e seus arredores.

A intenção deste plano é definir um modelo de desenvolvimento urbano e territorial para cada uma destas três áreas do país, com o objetivo de reduzir a dispersão desordenada do espaço urbano.

“Isto implica esquecermos do modelo de casinha, que nos está afastando, e trabalhar com projetos de densidade média, em complexos de conjuntos habitacionais, como são os casos de Curundú, Alto de los Lagos e San Antonio. O que se busca é que o promotor se motive a esquecer a casa e se dedique a provocar os conjuntos habitacionais”, acrescentou Juen Manuel Vázquez.

Além do fomento ao desenvolvimento residencial de forma ordenada, o Plano Metropolitano 2035 compreende obras nos setores de transporte público, água potável, esgoto, energia elétrica, gestão de resíduos sólidos, sistemas de drenagem e outras.

Em relação a investimentos, o Plano Metropolitano 2035 prevê US$ 20 bilhões ao longo deste período. Está dividido em quatro etapas. Segundo o governo, a contagem de investimentos teria começado já em 2015, e esta primeira etapa irá até 2020, com um total investido de US$ 8 bilhões.

Depoois, a etapa 2 seria de 2021 a 2025, investindo US$ 7 bilhões. De 2026 a 2030, US$ 3 bilhões mais seriam dedicados ao programa em sua terceira etapa. Finalmente, outros US$ 2 bilhões seriam investidos de 2031 a 2035 na sua etapa final.

A distribuição destes valores pelo território do país estaria pensada da seguinte maneira: 65% do total planejado serão aplicados na sub-região Pacífico Leste, enquanto o Pacífico Oeste receberia 29% e a região Atlântico teria os 6% restantes.

Se este plano alcançar seus objetivos, será uma das raras ocasiões que o planejamento estratégico do desenvolvimento se aplica com sucesso na América Latina. Não por acaso, o governo do país afirma que o investimento destes US$ 20 bilhões significará uma economia de US$ 70 bilhões, na forma de redução de custos logísticos e perdas na produtividade geral associados com a ausência da infraestrutura planejada.

Mais precisamente, o governo calcula que para cada dólar gasto neste programa, se economizariam US$ 3,87.

Nesta conta entram todos os empregos gerados pelas obras, claro, mas também as oportunidades de trabalho nos novos territórios urbanizados, os menores tempos de deslocamento da força de trabalho, o melhoramento da cadeia logística nacional, a dispersão geográfica da demanda por bens e serviços, o aumento do mercado interno e da renda per capital em todo o Panamá. Ou seja, desenvolvimento econômico e social.

Obviamente, um plano estratégico longo como este dependerá de unidade política para mantê-lo vivo e ativo por todo o período. Na América Latina, isto não é o normal. Mas se o fizer, o Panamá voltará a dar lição a toda a região latino-americana. Agora, não por seus impressionantes números de crescimento, e sim pela capacidade de sua inteligência coletiva.

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