A Construção Latino-Americana entrevistou Sergio Toretti, presidente da Federação Interamericana da Indústria da Construção (FIIC) para saber mais sobre o alcance da pandemia do Covid-19 no setor nos diferentes países da América Latina.

Sergio Torretti

Sergio Torretti

Como o senhor avalia o impacto da pandemia no setor de construção da América Latina?

Esta crise tem um grande impacto. Segundo o Fundo Monetário Internacional, para a América Latina e o Caribe estão projetadas uma queda média de 5,2% em 2020 e uma recuperação média de 3,4% em 2021.

A Venezuela teria a maior queda, com 15%, sendo seguida pelo México, com 6%, a Argentina e o Brasil com 5,7% e 5,3% respectivamente, e Chile e Peru com 4,5%.

Com relação ao desemprego, nosso setor vai experimentar um forte nível de desemprego, que sem dúvida chegará a dois dígitos, mas ainda é cedo para arriscar dizer qual será seu tamanho, pois não sabemos o quanto durará a pandemia. Além disso, na América Latina nosso setor tem uma grande quantidade de empregos não formais, o que acaba escondendo a magnitude real dos números.

Os países mais prejudicados são os que dependem principalmente de suas commodities, e os que estão mais endividados, como é o caso da Venezuela e da Argentina, principalmente.

Os menos prejudicados são países como o Chile, Peru e Uruguai, que estão em melhores condições para uma recuperação mais rápida. Por sua vez, os países da América Central, em geral, devem ser favorecidos pela ajuda financeira dos bancos multilaterais.

Quais foram as principais medidas tomadas pela indústria para enfrentar a pandemia?

As principais medidas tomadas pelo setor dizem respeito a resguardar a segurança dos nossos trabalhadores nas obras, existindo protocolos sanitários em aplicação, para fazer com que a atividade de construção seja algo que não vá por em risco a saúde dos trabalhadores.

Outra medida tomada foi declarar a construção como atividade essencial, dada sua importância para a atividade econômica e para resguardar fontes de trabalho para as pessoas.

Liebherr Chile ha montado una grúa torre 1000EC-H 50 en la minera Centinela en Chile

Em relação aos aspectos sanitários, vemos que os países pretenderam manter o setor em funcionamento, dando garantias mediante a aplicação de protocolos tanto para prevenir as paralizações como para uma rápida reativação do setor.

Destacam-se as boas práticas e o trabalho colaborativo entre o setor público e o setor privado, e aspectos como a lavagem das mãos, o uso de máscaras, distanciamento social, a proibição de acesso às obras de pessoas alheias ao trabalho etc.

Há casos de paralização total ou parcial, em países como Guatemala, El Salvador, Honduras, México, Paraguai e Peru. Situação diferente é vivida no Brasil, Colômbia, Panamá e Costa Rica, onde a atividade não foi parada em sua totalidade.

Há algum país que mereça o destaque por sua maneira de enfrentar a crise?

Há um grupo importante de países que se destacaram pelo modo como estão enfrentando a crise, e também, na América Latina, há outro grupo de países que não estão enfrentando adequadamente, como em geral o resto dos países latino-americanos e do mundo.

Mas para além dos países, quero destacar as iniciativas e a importância que lhes foram dadas por todas as câmaras de construção da América Latina. Todas, em maior ou menor medida, trabalharam junto aos governos para tentar não paralisar os canteiros e decretar a atividade como essencial. As câmaras também contribuíram com ideias, medidas e propostas aos diferentes governos para enfrentar a crise, demonstrando que nosso setor tem muito a contribuir em matéria de geração de emprego e de desenvolvimento econômico para superar esta crise.

Qual sua opinião, em termos gerais, sobre as medidas tomadas pelos diferentes governos da região coberta pela FIIC?

Os governos em geral estão preparando as licitações de uma série de obras de vias secundárias e obras de água potável, que são de fácil licitação e rápidas de executar, para gerar mão de obra e ajudar as pequenas e médias empresas em nossos países. Estas obras estão recebendo o apoio de financiamento dos bancos multilaterais, como o BID.

Também se destacam medidas que estão implementando alguns países para facilitar o acesso aos capitais de giro e créditos facilitados, como é o caso do Chile (com aval do Estado em até 80% de garantia pelo crédito). Também tem havido iniciativas de desconto nos impostos ou postergação de pagamento de alguns tributos para as pequenas e médias empresas. Creio que falta muito por avançar, mas estão sendo feitos esforços na direção certa e na medida do possível.

Que obras emblemáticas viram uma paralização por causa da crise?

O fato de que obras emblemáticas em nossos países sofreram uma paralização devido ao surto do vírus não é um tema relevante, já que esta paralisação é algo momentâneo e que, sem dúvida, voltarão mais cedo ou mais tarde, por sua relevância para o desenvolvimento das economias dos países. Isto não foi uma tendência em todos os países porque há países que não paralisaram suas obras de construção, portanto não é algo relevante dado o nível de problema produzido por esta pandemia.

Em termos de investimentos em construção, o que vai acontecer este ano?

constru argentina

Infelizmente, é muito claro que em termos de investimentos na construção este ano vai ser de baixa de toda a atividade, e de maneira significativa, e não sabemos se será só esse ano ou se isso se prolongará para o ano que vem.

Devemos separar o investimento em duas áreas: o investimento privado, que fundamentalmente se conecta com a questão habitacional, em que as vendas perceberam uma queda de até 50% ou mais em alguns países. Só se estão terminando as obras em execução, mas com muita cautela e sem planejar novas obras.

E no plano da infraestrutura, também se projeta uma queda importante no que resta do ano, equivalente a 45%, mas neste setor o futuro pode ser mais promissor, dado que é uma ferramenta para os governos para geração de mão de obra e recuperação das economias dos países.

É de esperar que, ao passar a crise, a construção seja um dos setores que voltará com mais força. Está de acordo com esta afirmação?

Estou totalmente de acordo com esta afirmação, não há qualquer dúvida de que a construção e nosso setor é o mais eficiente para superar a crise que estamos vivendo, por várias razões: primeiro, porque é um grande gerador de empregos; segundo, porque é um motor de reativação econômica muito importante e de efeito imediato, pela quantidade de trabalho que produz, não apenas nas grandes empresas como também nas pequenas e médias, incluindo aí todos os provedores de materiais e equipamentos que são usados.

É um setor fundamental para superar a crise econômica que virá com esta pandemia.

Como toda esta crise afetará o déficit de infraestrutura da América Latina?

Sem dúvida, a crise afetará e aumentará o déficit de infraestrutura que os nossos países têm. Mas devemos observar isto com um certo grau de otimismo, já que nos obrigará a nos esforçarmos ainda mais para que, de forma muito mais efetiva, tomemos consciência de que, conjuntamente, devemos nos aliar e trabalhar junto ao setor público e ao setor privado para reduzir este déficit. É a única maneira de conseguir isto, já que nunca vamos chegar lá só com o setor público pois ele tem recursos muito limitados. Tampouco pode ser só com o setor privado, e portanto é uma oportunidade para se produzir parcerias público-privadas em nossos países, como a fórmula mais eficiente para reduzir os déficits de infraestrutura em nossos países.

Para finalizar, quero refletir sobre algunas das principais lições que a pandemia nos deixa, que nos faz perceber como nós somos fracos como sociedade em nível mundial. À medida em que tomemos consciência de que devemos trabalhar juntos, que devemos compartilhar as boas e as más experiências, que confiemos mutuamente em nós, que incorporemos mais tecnologias, poderemos resolver mais rapidamente esta crise e sabermos valorar mais esta maneira de trabalhar no futuro. Estas são algumas reflexões que na FIIC estamos fazendo.

Devemos seguir avançando na segurança e na capacitação dos nossos trabalhadores para incorporá-los com facilidade no cenário de mudança que vem aí.

E claro, devemos incorporar rapidamente as novas tecnologias, trazer mais transparência às propostas e designações de contrato e a ética na nossa atuação. Estes devem ser o primado do nosso setor no futuro.

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