Rodovias em debate

By Fausto Oliveira13 November 2014

ABG 5820

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A América Latina vive um momento de transformação em sua infraestrutura. Os já conhecidos baixos números de pavimentação estão mudando para melhor conforme parte dos governos da região anunciam seus novos investimentos e programas. Os tempos não são rápidos, às vezes por burocracias que demandam reformas legais, outras vezes pela própria natureza dos projetos de grande envergadura. Mas pouco a pouco, nota-se a passagem das máquinas pela malha viária latino-americana, aumentando sua qualidade a cada quilômetro pavimentado.

Interpretar esse novo contexto, conhecer suas principais características e limites foi o objetivo da Construção Latino-Americana ao perguntar a três executivos de importantes provedores de equipamentos qual é sua percepção a respeito desse novo panorama de construção de rodovias na região.

Perspectiva regional

Afrânio Chueire, presidente da Volvo Construction Equipment Latin America, equilibra otimismo com muito planejamento. “Nós acompanhamos os mercados da região e seus projetos, que são de longo prazo. Uma concessão tem um tempo de maturação até que se chegue a licitar e contratar empresas. Nosso trabalho é conhecer os agentes econômicos envolvidos desde antes e nos aproximarmos deles. Se esperamos para nos aproximar até o momento em que uma empreiteira adjudicada abra cotação de equipamentos, a chance de ter sucesso será pequena”, diz ele.

A Volvo faz estudos minuciosos sobre o mercado regional, de maneira a alimentar seu planejamento de longo prazo com muita informação. “Há projetos interessantes no Peru, Colômbia, Paraguai, México, sendo que este último foi o único país que em 2014 apresentou um crescimento vigoroso de seu mercado de equipamentos de construção. Desde 2002 acompanhamos o programa 4G da Colômbia, que depois do México é o país que mais se desenvolveu comparado ao ano anterior”, afirmou o presidente da Volvo na região.

E no que pode ser surpreendente para os que observam a situação da Argentina com pessimismo, as análises da Volvo consideram que há uma possibilidade positiva de futuro a curto prazo para o país. “Nossa leitura é de que se a Argentina conseguir passar por esse ano sem graves danos provocados pelo default técnico, e sendo ano eleitoral em 2015, o investimento estrangeiro voltará. Já existe um pacote chinês muito interessante para o país. A Argentina não está morta”, sentencia Afrânio Chueire.

Para Luiz Marcelo Tegon, diretor presidente da Ciber Equipamentos Rodoviários, subsidiária do Grupo Wirtgen no Brasil, o déficit de infraestrutura rodoviária na América Latina é uma grande oportunidade. “Na América do Sul, são 12% em média de rodovias pavimentadas, o que por si só demonstra o tamanho da oportunidade. Temos monitorado consistentemente diversas obras e projetos sendo lançados em toda América Latina, assim como as projeções positivas de crescimento para 2014 em países como México, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Os principais fatores entre os países são as demandas burocráticas, falta de recursos ou mão de obra especializada, lentidão na execução das obras, dificuldades e entraves políticos e ambientais que acabam onerando a melhoria do déficit de infraestrutura da América Latina”.

Por sua vez, Federico Rio, gerente regional da Caterpillar Paving Products para a América Latina, põe ênfase na informação proveniente de sua rede de distribuidores na região para formar uma visão da empresa sobre o cenário de investimentos. “A Caterpillar monitora de perto as oportunidades e tendências. Trabalhamos com nossos distribuidores em nível nacional e regional. Eles interagem diretamente com os governos, associações da indústria e clientes”, afirma.

A onda de investimentos

São sempre polêmicas as estatísticas que tentam calcular quanto deveria ser investido em infraestrutura em comparação ao que realmente se investe. Em outubro, a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Cepal) publicou um estudo em que advoga um investimento anual de 6,2% do PIB regional em obras de infraestrutura. O número de investimento real, de acordo com a entidade, é de 2,7%.

Não obstante, também é verdade que o investimento atual produz resultados e nem tudo se resume aos montantes financeiros. “Pode ser difícil determinar que quantidade de investimento é suficiente, pois as condições mudam constantemente”, diz Federico Rio, da Caterpillar. Segundo o executivo, deve-se observar um pouco além e preocupar-se com o planejamento dos projetos. É imperativo perceber os sistemas de modelação das iniciativas para aproveitar ao máximo as possibilidades de desenvolvimento, concentradas não apenas no aspecto financeiro.

Afrânio Chueire, da Volvo, percebe o problema de forma mais objetiva. “O investimento atual é pequeno. Falando de Brasil, hoje em dia está em 2% do PIB, quando deveria estar em 6%. Se os planos de 7,5 mil quilômetros de pavimentação de rodovias e 11 mil quilômetros de ferrovias saírem do papel, então o país começaria a equilibrar esse número”, afirma.

Luiz Marcelo Tegon também acredita que os investimentos atuais são apenas uma parte do que seria necessário. “Apesar de serem cifras altas, ao que tudo indica ainda estão aquém da real demanda para alavancar os índices percentuais de rodovias pavimentadas. Entraves burocráticos, questões ambientais e mão de obra especializada são também gaps que contribuem para avanços mais lentos na infraestrutura”, diz.

Os modelos

O debate teria que incluir os vários modelos de investimento rodoviário apresentados pelos governos da região. Nesse aspecto, os líderes da indústria concordam que desde o ponto de vista dos fornecedores, há que se adaptar à realidade de cada país.

Federico Rio insiste em que “no caso da Caterpillar, a maneira como manejamos o tema dos modelos de negócio é através dos nossos distribuidores. Eles têm familiaridade com os sistemas nacionais e nos ajudam a oferecer o melhor valor para cada contexto. Cabe a nós nos adaptarmos ao modo de conduzir os negócios em cada lugar”.

Chueire, no entanto, afirma que “nós não acreditamos que exista um modelo que seja o melhor para toda a América Latina, cada mercado tem que encontrar o seu. O que sim acreditamos é que tem que ser um modelo equilibrado. Não pode haver modelos que prevejam investimentos pesados em projetos de 30 anos sem segurança jurídica, ambiental, comercial e financeira. Deve haver políticas claras e instituições sólidas que garantam a continuidade do que está contratado. As ideologias políticas não devem se misturar com as necessidades de investimento de cada país”.

O diretor presidente da Ciber crê que as parcerias público-privadas serão determinantes para os investimentos futuros nas rodovias da região, mas adverte para a necessidade de reformas regulatórias que consolidem o cenário. “Com forte concorrência por capital na região, acreditamos que os países que refinem seu modelo de PPP atrairão maior interesse para seus projetos. Neste contexto, destacam-se o Chile, México e Colômbia como potenciais performances acima de média do mercado. Em contraste, os países com menos experiência conseguirão menor absorção de recursos para sua oferta de projetos”, afirma.

Esse é um debate que não terminará tão cedo na América Latina. E tampouco se restringe a uma discussão sobre financiamento de projetos, uma vez que a baixa profissionalização de operadores, o preço dos insumos, o crescimento econômico de longo prazo e os sempre presentes fatores políticos intervêm com força no contexto. Como contribuição ao tema, a Construção Latino-Americana organizará a primeira conferência latino-americana de construção rodoviária, em Santiago do Chile, junto à primeira edição da Conexpo Latin America em 2015 (ver box).

***

Líderes da indústria comentam conferência da KHL

Os diretores de empresas fabricantes de máquinas entrevistados para essa reportagem comentaram sobre a primeira conferência Construção Latino-Americana de Rodovias, evento que se realizará um dia antes da Conexpo Latin America, em outubro de 2015 em Santiago do Chile. O evento será o primeiro na região a discutir exclusivamente a construção rodoviária, e é uma produção do KHL Group, editora da Construção Latino-Americana.

Para Luiz Marcelo Tegon, diretor presidente comercial da Ciber Equipamentos Rodoviários, “essa é sem dúvida uma oportunidade de reunir ideias e perspectivas para o setor para os próximos anos. Juntar líderes, especialistas, órgãos governamentais e instituições desse setor vai gerar debates construtivos para buscar soluções e difundir tecnologias e aplicações. Isso é fundamental para o avanço com qualidade da infraestrutura na América Latina”.

Federico Rio, gerente regional da Caterpillar Paving para América do Sul, faz coro. “Eventos assim são oportunidades de trocar ideias que aportam ao avanço na qualidade e na eficiência da construção rodoviária. Para os fabricantes, nos dá a oportunidade de mostrar aos clientes nossas soluções aos desafios que enfrentam diariamente. As empreiteiras estão sempre buscando novas tecnologias para ajudá-los a trabalhar de forma mais inteligente e rápida”.

Afrânio Chueire, presidente da Volvo CE Latin America, percebe na primeira conferência Construção Latino-Americana de Rodovias uma oportunidade de facilitar o planejamento para aumentar sua participação de mercado na América Latina. “Nós somos fornecedores desse setor econômico. Para sermos bons no que fazemos, é necessário muito planejamento. E nesses eventos sempre se compartilha alguma informação importante que nos ajuda nesse processo”, diz o executivo.

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