Desacelerado, mas otimista

By Clarise Ardúz19 December 2013

DEC13 CLA Feature Foco Brasil

DEC13 CLA Feature Foco Brasil

Aquela ilusão de que o Brasil ficaria entre os países emergentes que apresentariam as mais altas taxas de crescimento nesta década, pelo que parece, não tem muito futuro, principalmente ao ver as estatísticas publicadas nos últimos meses por alguns organismos internacionais.

A União Europeia (UE) anunciou uma piora nas projeções para o crescimento da economia brasileira, com relação a 2013. Segundo informa o Relatório de Projeções da Comissão Europeia, publicado no inicio de novembro com os valores estimados por autoridades do continente para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o brasileiro poderia experimentar uma queda na porcentagem anunciada há pouco mais de seis meses, passando de 3% para 2,2%. Essa porcentagem é considerada uma das piores entre os países e regiões emergentes, já que o mesmo organismo prevê que a China registrará 7,5%; a Índia, 2,2%; e a América Latina, 2,6%. Brasil está apenas melhor que Rússia (1,9%) e México (1,3%), segundo as projeções do relatório.

Outros que não veem um bom panorama para a economia brasileira são o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O primeiro prevê, para este ano, um crescimento de 3,5%, 0,75 ponto percentual abaixo do estimado em anos recentes. Por sua vez, o segundo, que em um relatório anterior tinha citado um crescimento do PIB de 2,9%, aponta agora a um crescimento da ordem de 2,5%.

Para 2014, o panorama não melhora muito. Há seis meses, a previsão da UE sobre o crescimento da economia brasileira era de 3,6%. Mas agora o organismo anunciou uma queda dessa cifra, alcançando 2,5%, muito diferente ao que o organismo espera para países como China (7,4%), Índia (4%), México (3,1%) e Rússia (3%). Para a América latina, a projeção da UE é de 3,1%.

A OCDE, por outro lado, defende um crescimento ainda menor para a economia brasileira em 2014: 2,2%.

Com um panorama tão pouco alentador para esse e o próximo ano, alguns decidiram olhar mais adiante e arriscaram inclusive projeções para 2015. A Comissão Europeia projeta uma cifra de 3,1%, a melhor desde 2010, quando o PIB brasileiro registrou um crescimento de 7,5%.

Investimentos

Com um panorama econômico que apenas parece mostrar melhores resultados em 2015, segundo os mesmos organismos internacionais citados acima, muitos devem estar se perguntando como fica a questão dos investimentos em infraestrutura para os próximos anos? Na realidade, a impressão é de um futuro mais alentador para o setor.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) publicou no final de outubro um relatório sobre as perspectivas de investimentos no Brasil para o período 2014-2017. O documento considerou projetos e planos estratégicos de investimentos de empresas, não restringido aos que contam com o apoio do Banco, mas também considera investimentos que se realizarão através de Parcerias Público-Privadas (PPP), contempladas pelo Programa de Investimentos em Logística (PIL).

O documento publicado informa que se espera um crescimento real de 26% em comparação ao período 2009-2012 nos 17 setores considerados para o cálculo, que aparecem divididos entre Indústria (petróleo e gás, extração mineral, automotriz, papel e celulose, química, siderurgia, eletrônica, complexo industrial de saúde, aeronáutica e demais indústrias), Infraestrutura (energia elétrica, telecomunicações, saneamento, transporte rodoviário, ferrovias, portos e aeroportos), Residencial, Agricultura e Serviços.

A partir desse informe, com relação ao que diz respeito à infraestrutura em geral, incluindo o residencial, de 2014 a 2017 poderiam ser feitos investimentos no país de cerca de R$1,377 trilhão (aproximadamente US$594 bilhões), uma variação positiva de 23,1% em relação ao período anterior considerado (2009-2012). Os setores com maior variação de investimentos entre ambos os períodos, estão vinculados ao tema da logística: portos e ferrovias, que alcançarão níveis de investimento de R$34 bilhões (aproximadamente US$14,669 bilhões) e R$59 bilhões (cerca de US$25,455 bilhões), respectivamente.

Por outro lado, a Associação Brasileira de Tecnologia para a Construção e Mineração (Sobratema) anunciou, na segunda metade de novembro, que para o período de 2013 a 2018 esperam-se investimentos de R$1,19 trilhão em 8.300 obras de infraestrutura dos âmbitos municipais, estaduais e federais. Entre os oito setores incluídos na pesquisa (petróleo e gás, transporte, energia, saneamento, indústria, infraestrutura de habitação, infraestrutura esportiva e outros), o de transportes é o que apresenta as maiores cifras: R$369,6 bilhões (US$159,458 bilhões) até 2018. Na sequência, aparecem petróleo e gás, com R$346,6 bilhões (US$149,535 bilhões) e, em terceiro lugar, o setor energético, com R$196,1 bilhões (US$84,604 bilhões). O maior desafio, de acordo com o relatório, diz respeito ao setor de saneamento básico, serviço ao qual menos da metade da população do país tem acesso.

Mais lento

Ao que parece, o setor brasileiro da construção continua vivendo uma desaceleração em 2013. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Brasil, que anunciou informações preliminares em novembro, o PIB setorial da construção em 2013 deve alcançar um crescimento de 2%, número inferior ao PIB nacional. O principal fator de aporte a esse crescimento, segundo a entidade, seria o gasto das famílias, principalmente em reformas. Para 2014, a FGV defende um PIB do setor de 3%, mas sustenta que até o final do ano todas as cifras poderiam sofrer alterações após uma revisão.

Os problemas que estão contribuindo com essa desaceleração seriam a dificuldade do governo em destravar os incentivos para a infraestrutura (o programa de concessões, que deveria ter decolado em 2013, ainda não alcançou o ritmo esperado) e as fortes quedas que apresentou o mercado imobiliário em alguns estados, como Minas Gerais e Brasília.

A FGV também anuncia que o novo ciclo do setor imobiliário ainda não agarrou força, fato que espera que aconteça no segundo semestre de 2014. Para o primeiro semestre, prevê uma recuperação das obras de infraestrutura.

Com relação à indústria de materiais de acabamento, a FVG projeta para este ano um faturamento 7,1% maior que o de 2012. Para o próximo, espera um crescimento de 7%.

Para a indústria dos materiais de base, o crescimento esperado é de 2,8% para este ano e de 5% para 2014.

Análise e evolução

“Em 2013, o mercado da construção ficou um pouco estancado. Tudo porque estamos vivendo um momento de transição”, afirma Carlos Namur, vice-presidente da Galvão Engenharia, responsável pela divisão de infraestrutura. Comenta que o setor está passando de um modelo arcaico de contratações de obra para um novo. “Antes eram somente projetos do governo, desatualizados e básicos, onde logo que começávamos a obra percebíamos que o projeto necessitava ter modificações e era necessário trocar a planilha. Logo vinham os órgãos fiscalizadores justamente porque apareciam informações que não estavam no projeto e paralisavam as obras. Ou seja, uma série de entraves que ainda existem, mas agora estamos nesse processo de transição, passando de uma forma de contratação antiga para uma nova”, garante. Explica que esse foi justamente um dos motivos que causou a paralização da construção no país este ano. “Definitivamente, foi muito pouco o que se concretizou em 2013. O importante veio via PPPs (Parcerias Público-Privadas) e EPC (Enginnering, Procurement and Construction), que incluem novas formas de contratação”, afirma.

Apesar de que 2013 não tem sido um dos melhores anos, Namur demonstra otimismo sobre alguns dos segmentos que, considera, terão ‘resultados exitosos’ em 2013. “Com relação a aeroportos e rodovias, acredito que serão vistos grandes resultados no final de 2013, já que o governo está mais atento às questões que o empresariado vem levantando. Esse canal de diálogo está funcionando melhor”, comenta.

Com relação a 2014, o vice-presidente da Galvão Engenharia aposta por um forte desenvolvimento com relação a rodovias e ferrovias em um âmbito federal. No estadual, vai mais pelos projetos via PPP. “O poder público está começando a entender que ele, sozinho, não pode viabilizar toda a infraestrutura que o país necessita. O governo está percebendo que não consegue viabilizar tudo isso no curto prazo”, garante.

Por outro lado, Giani Pfister, superintendente da brasileira Construcap, também se expressa com cautela sobre o ano que termina. “Deve-se entender ainda se o que o país viveu este ano foi uma crise política ou se foi pela crise mundial. Com relação à crise europeia, podemos dizer que sentimos sim uma diminuição nos investimentos, houve realmente um recesso no mercado”, afirma.

Além disso, destaca que o país tem crescido muito nos últimos anos, principalmente no que se refere ao setor da construção, sendo a demanda um dos responsáveis por esse desenvolvimento da indústria no país. “Nunca a engenharia passou por um momento tão bom como esse, a pesar que estejamos vivendo um período mais estável”, garante.

Giani afirma que, no Brasil, existe uma demanda positiva de projetos, apesar de que agora esteja menos aquecida que em outros momentos, mas também defende que para o próximo ano virá uma inovação tecnológica muito grande. “Acredito que também haverá uma forte tendência por ter construções cada vez mais industrializadas, porque sentiremos cada vez mais a escassez de mão de obra”, explica.

Além disso, tanto a superintendente da Construcap como o vice-presidente da Galvão Engenharia, se mostram muito positivos com relação ao futuro da construção no gigante sul-americano. “Se o governo realmente cumprir com o investimento em infraestrutura que promete para os próximos anos, em termos de logística, portos e aeroportos, somado ao aporte de tecnologia que existe com a entrada de estrangeiros ao país, acho que vamos ter um crescimento na construção de 30 anos em dez”, finaliza.

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