Começa a corrida pelo ouro

By Clarise Ardúz19 December 2013

DEC13 CLA Feature Concrete

DEC13 CLA Feature Concrete

Como seria poder construir rodovias, pontes, calçadas ou qualquer outro tipo de estruturas com um concreto que não exigisse a manutenção frequente com o passar dos anos? Pensando apenas em algumas possibilidades, pode-se concluir que os pontos positivos poderiam ser muitos. No mínimo significaria menores gastos de manutenção, material, mão de obra, menos transtornos com relação ao tráfego veicular e ao de pedestres, além de menos aportes ao que hoje é um grande problema para o planeta: o efeito estufa. Cabe lembrar que, cerca de 7% das emissões mundiais de CO2 provém da produção de cimento.

Com esses questionamentos em mente, alguns países estão desenvolvendo pesquisas para poder produzir um concreto autorrecuperável, com mecanismos de autorrecuperação incluídos na própria mistura do produto.

Corea do Sul é um dos que está se dedicando a pesquisar o assunto. De acordo com o que foi publicado pela imprensa internacional, a Universidade de Yonsei tem focado seus estudos na restauração da força do concreto danificado, concentrando seus esforços na proteção da superfície, onde normalmente podem aparecer fissuras causadas por diversos fatores, inclusive pela água.

A ideia em estudo é um revestimento que contenha, na mistura do concreto, microcápsulas de polímero, as quais possuem uma solução em seu interior que, ao estar exposta à luz, se converte em uma substância sólida resistente à água. Ou seja, ao acontecer um dano na superfície revestida, a mesma fissura poderia fazer com que as cápsulas se abrissem para liberar a solução, preenchendo a fissura com a substância, a qual se solidificaria com a luz solar.

Os investigadores da Universidade de Yonsei informaram que o sistema apresenta um custo mais econômico que outros estudados anteriormente, já que este é ativado apenas com a luz solar, enquanto outros necessitam catalisadores que poderiam gerar mais gastos e limitações.

O produto em estudo foi pulverizado sobre superfícies de amostras de concreto para comprovar sua eficiência. Com lâminas de barbear foram feitas pequenas fissuras e o conteúdo das microcápsulas foi liberado, preenchendo a área aberta. Algumas horas depois, sob a luz solar, foi confirmada a cicatrização das áreas danificadas e, ao mesmo tempo, a eficiência do novo concreto.

Outra pesquisa de concreto autorrecuperável está em desenvolvimento na Universidade de Bath, no Reino Unido. O projeto já recebeu 500 mil libras (aproximadamente US$811.211) para poder seguir adiante durante os próximos três anos.

Este estudo também envolve microcápsulas na mistura do concreto. A diferença é que essas microcápsulas teriam, em seu interior, uma bactéria, que, em contato com a água que entra nas fissuras da superfície, produziriam calcário, fechando a zona danificada e evitando a corrosão do aço utilizado na estrutura.

O que os científicos da universidade britânica buscam, neste momento, é uma solução para que a bactéria consiga sobreviver dentro do concreto por um longo período. A dificuldade está no fato de que o concreto é muito denso e não oferece o espaço que a mesma necessita para se manter viva.

A autorrecuperação do concreto, segundo a pesquisa, aumentará em grande proporção a vida das estruturas de concreto, além de eliminar a necessidade de manutenções e reduzir o custo de vida das estruturas em 50%.

E a América Latina?

Apesar de que a tentativa por produzir um concreto autorrecuperável e com maior durabilidade não seja algo tão novo, a América Latina está ainda muito verde no assunto. Algumas empresas parecem ter o tema sob sete chaves ou, simplesmente, não conhecem o assunto em profundidade para poder opinar. No entanto, outras já estão caminhando na direção certa.

A cimenteira colombiana Argos é uma das que está correndo atrás. “Na Argos, soubemos há um tempo sobre o concreto autorrecuperável. É um dos concretos que estamos pesquisando, para no futuro poder oferecer a nossos clientes como um concreto de alta tecnologia”, conta Camilo Restrepo, vice-presidente de inovação da empresa.

No entanto, o profissional explica que “quando se fala de concreto autorrecuperável deve-se deixar claro que não é um concreto que consegue reparar grandes danos ou falhas, é um concreto que busca ter capacidade de reparar microfissuras ou outros tipos de deteriorações que se produzem nas estruturas por diversas causas, incluindo o uso diário que as submete a diferentes tipos de cargas”. Cabe lembrar que as microfissuras são as responsáveis, com o passar do tempo, pela redução da vida útil das estruturas e ter uma tecnologia que seja capaz de repará-las, segundo o porta-voz da companhia, “seria algo muito benéfico para a durabilidade do concreto e, consequentemente, para a sociedade”.

Restrepo conta que a Argos está desenvolvendo um concreto de alta tecnologia, flexível, que também incorpora tecnologias que poderão, eventualmente, torná-lo autorrecuperável. Inicialmente, explica, a investigação está dirigida ao desenvolvimento de um concreto com muito mais resistência à flexão que um concreto convencional. Em uma segunda etapa, será desenvolvido o concreto autorrecuperável. “Acreditamos que a tecnologia do concreto autorrecuperável, a pesar de que ainda falta um caminho para percorrer para poder ser industrializado em grande escala, é muito interessante e promissor para a indústria do concreto e da construção”, afirma.

Mas a pregunta que paira no ar é: as cimenteiras teriam interesse em produzir um concreto autorrecuperável?

Restrepo garante que sim. “Acreditamos que os concretos como o flexível e o autorrecuperável serão os percursores dos ‘concretos inteligentes’, que além de prestar um serviço à sociedade, também poderão cumprir uma missão, aumentar a vida útil da infraestrutura e também fornecer informação de seu estado constantemente para que os engenheiros e administradores da infraestrutura possam tomar decisões”, adiciona.

Segundo o profissional, esse tipo de concreto tem como maior vantagem a possibilidade de prolongar a vida útil da infraestrutura, resultando em menores custos econômicos para o projeto - quando é feita a análise total dos custos -e também melhorando o desempenho ambiental ao analisar seu ciclo de vida completo.

O que diz o gigante?

O Brasil é reconhecido por ter uma das melhores indústrias de cimento do mundo. Mas, até o momento, o concreto autorrecuperável parece não estar em pauta ou, pelo menos, é um tema sobre o qual se escuta muito pouco.

Ronaldo Vizzoni, gerente de Infraestrutura da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), informa que o tema ainda é muito insipiente no país. “Não tenho informações exatas se alguma indústria nacional tem investigado sobre o assunto, mas certamente estão atentos ao seu desenvolvimento”, afirma o executivo, quem garante que a indústria brasileira do cimento “é muito ativa em investigações sobre novos produtos, mas é extremamente conservadora e cuidadosa”.

Um relatório inédito da ABCP sobre o mercado brasileiro do concreto, publicado no final de agosto, informa que, no longo prazo, o Brasil terá o desenvolvimento necessário para gerar novas funções no concreto, como é o caso dos concretos autorrecuperáveis.

Vizzoni, também acredita que um tipo de concreto como o autorrecuperável teria um futuro promissor no setor da construção do país. No entanto, percorreria um longo caminho antes de ser comercializado. “O produto teria que ser comprovadamente eficiente e normalizado para ser utilizado onde necessário. A eficiência, o profissionalismo e o cuidado da nossa indústria da construção civil, faz com que as falhas sejam mínimas. Mesmo assim, acredito que o produto teria uma boa aceitação”, finaliza.

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