América Central em apuros

By Cristián Peters27 November 2020

Centroamérica

Em um contexto pandêmico no qual o mundo espera uma contração econômica de 5,2%, e dentro do qual a América Latina pode ver a pior parte com uma queda projetada pela Comissão Econômica para a América Latina de 9,1%, a América Central será sem dúvida uma sub-região a enfrentar um cenário altamente desafiador.

De fato, segundo o relatório econômico “América Central e a República Dominicana em 2019 e perspectivas para 2020”, elaborado pela Cepal, estas economias “sofreriam uma contração média de 5,7%, afetadas pelas medidas de restrição da mobilidade e fechamento das atividades, a fim de conter a propagação da enfermidade Covid-19”.

Esta queda, a maior em décadas, será particularmente pronunciada em El Salvador e Nicarágua, onde as perdas econômicas ficariam em 8,6% e 8,3%, respectivamente.

E assim, o primeiro semestre de 2020 já mostrou as garras da recessão, e déficit acumulado da região no período ficou 2,5% do PIB, superior a 2019. “Neste indicador, Panamá e El Salvador alcançaram maior déficit como porcentagem do PIB, com 4,3% e 4% respectivamente. São seguidos por Costa Rica com -3,8%, República Dominicana com -1,9%, Guatemala com -1,6%, Honduras -1,4% e Nicarágua -0,4%”, revelou o estudo.

Golpe econômico

CentroAmerica

Estas fortes quedas se explicam, em grande medida, porque desde a segunda quinzena de março os países mencionados implementaram várias medidas inéditas para conter a expansão da pandemia. O impacto pode ser observado através do índice mensal de atividade econômica (IMAE).

Em janeiro e fevereiro, a maioria das economias da América Central mostravam uma tendência positiva. De acordo com a Cepal, destaca-se o caso da República Dominicana, que obteve taxas interanuais de crescimento de 4,7% e 5,3% em janeiro e fevereiro, respectivamente. Por sua vez, Honduras vinha com expansão de 3,5% na média, enquanto a Guatemala percebeu expansão de 4,4% e 2,9%, respectivamente. Na Costa Rica o IMAE mostrava crescimento interanual médio de 2,5% nos dois primeiros meses do ano.

Não obstante, os números mais recentes mostram a magnitude do impacto, e como o setor de construção foi um dos segmentos econômicos mais afetados na pandemia. O IMAE do Panamá desabou 34,7% em abril na taxa interanual, a maior queda da América Central.

A economia de Honduras registrou queda média em abril e maio de 21,5%, e novamente o setor de construção foi um dos que experimentou as maiores contrações (68%). Durante os mesmos dois meses, o IMAE de El Salvador registrou queda média de 18,5%, e o setor de construção do país caiu nada menos que 49,3%.

O IMAE da Costa Rica se contraiu 9,4% na média de abril e maio, com todos os setores registrando taxas negativas, à exceção das atividades imobiliárias e da administração pública. Já o indicador da Nicarágua até abril apresentou queda de 9,5%. No caso nicaraguense, a surpresa é que a construção registrou uma taxa de crescimento interanual de 2,1%.

Por fim, a Guatemala apresentou queda média do IMAE de 10,1% entre abril e junho, e a República Dominicana teve queda média interanual de 21,7% entre abril e maio.

COSTA RICA

DetalleQdaRivera

Na Costa Rica, a construção é de grande importância para a economia nacional, e o país escolheu não fechar completamente o setor. Segundo Esteban Acón, presidente da Câmara Costarriquenha da Construção, a indústria “ocupa o quarto lugar em geração de emprego direto, além de representar 13% do emprego nacional entre ocupados diretos e indiretos. Acumula, também, 32% da carteira do Sistema Bancário Nacional entre créditos imobiliários e financiamento de obras, funcionando como multiplicador da economia a partir de seu elevado poder de arrasto sobre outras atividades econômicas vinculadas”.

Mas isso não significa que a construção não se afetou. O setor já vinha colhendo maus resultados mesmo antes da pandemia. “Embora na Costa Rica as obras não tenham se paralisado por causa da Covid-19, e os projetos que já estava, em construção puderam continuar seu curso, a incerteza trazida pela emergência sanitária e a precária situação econômica do país afetaram fortemente a confiança dos investidores e consumidores, colocando um freio no início de novas obras que substituam as atuais quando termine sua execução”, afirma.

De acordo com as projeções do Banco Central da Costa Rica, em 2020 o setor de construção será o segundo com pior resultado de atividade econômica, e se prevê que o PIB da construção vá cair 8,7%, enquanto sua recuperação em 2021 deverá ser de só 1%, “o que é realmente baixo, considerando a pronunciada queda de 10,7% em 2019 e o que se projeta para este ano de 2020”, diz Acón.

Neste sentido, o dirigente comenta que “é necessário que o governo da Costa Rica defina um programa orientado a assegurar a reativação posterior à crise o mais rápido possível, e por isso é indispensável manter o tecido empresarial. Até o momento, não se pode considerar que o Poder Executivo tenha uma verdadeira agenda de reativação, porque ainda não se definiram ações sem se propuseram metas concretas ou planos de ação específicos para movimentar a economia”.

EL SALVADOR

Viaducto Circunvalación Norte1

A construção salvadorenha ficou parada por 85 dias, e quando veio a reativação, ela aconteceu com severas restrições. Neste contexto, o setor, que vinha de dois anos positivos com crescimentos de 6,6% e 8,7% em 2018 e 2019, respectivamente, deverá experimentar uma queda neste ano de cerca de 8%.

Mas apesar dos maus prognósticos, é importante destacar que o setor percebeu alguns avanços nos últimos meses, e segundo o Índice do Volume de Atividade Econômica (IVAE) de agosto de 2020, elaborado pelo Banco Central de Reserva (BCR), o indicador da construção caiu 27,8% em agosto, em comparação a julho passado.

“A construção tem sido o principal motor da recuperação econômica, dado seu efeito multiplicador sobre outras atividades produtivas. Tendo sido uma das primeiras atividades a reabrir, registrou uma recuperação em ritmo acelerado. Além disso, a realização de trabalhos de mitigação a partir de junho, derivados da tormenta tropical Amanda e Cristóbal, assim como a execução de diferentes projetos de investimento público e privado, contribuíram para o dinamismo do setor”, afirmou o BCR em comunicado.

GUATEMALA

O setor da construção guatemalteca poderia dar um respiro à economia no ano que vem, e segundo o Banco da Guatemala deverá ter um crescimento de 7% em 2021, tornando-se assim o setor com maior crescimento dentre as 17 atividades medidas pelo produto interno bruto daquele país. Se isto acontecer, será uma recuperação saudável depois da queda projetada de 6% para este ano. Vale destacar que o crescimento da construção havia sido de 8,3% em 2019.

“Observamos uma recuperação no terceiro trimestre, que oxalá se consolide no quarto trimestre”, disse em entrevista coletiva Sergio Recinos, presidente do Banco da Guatemala.

O governo guatemalteco apresentou importantes planos de infraestrutura pública, e dentro dele está prevista a construção de 14 novos hospitais entre 2020 e 2021.

Além disso, a Agência Nacional de Parcerias para o Desenvolvimento de Infraestrutura Econômica (Anadie) mantém um portfólio de sete importantes projetos para o ano que vem, com um investimento de US$ 1,56 bilhão reservados para eles, entre os quais se contam a modernização do Aeroporto Internacional La Aurora, a interconexão viária e transporte urbano de passageiros do eixo norte-sul da cidade de Guatemala, a reforma com contrato de manutenção e operação da Autopista Escuiutla-Puerto Quetzal e o porto intermodal Tecún Unán II.

HONDURAS

A Câmara Hondurenha da Indústria da Construção (Chico) projeta que este ano as perdas do setor poderão chegar a 12 bilhões de lempiras (cerca de US$ 500 milhões). 

Segundo o índice mensal de atividade econômica do país, elaborado pelo Banco Central de Honduras, em agosto de 2020 a construção privada caiu 31,3% (frente um crescimento de 5,5% em 2019 no mês de agosto), fruto da paralisação das obras de edificação. Apesar disso, a entidade adverte que após a reativação da atividade a partir de junho (mês em que experimentou uma contração de 33,9%), observa-se que a queda desacelerou, na comparação interanual. 

NICARÁGUA

O setor de construção da Nicarágua enfrentou a pandemia após dois anos de forte queda na atividade. Segundo o Banco Central da Nicarágua, o setor diminuiu o PIB em 15,6% e 38,1% em 2018 e 2019, respectivamente, e sua participação no PIB nominal passou de 5,7% em 2017 para 3,6% no ano passado.

No segundo trimestre de 2020, a economia nicaraguense refletiu o impacto econômico da pandemia de Covid-19, ao registrar uma redução interanual do Produto Interno Bruto do trimestre de 7,9% e de 2,3% na média anual.

De acordo com o informe do segundo trimestre feito pelo Banco Central, “a atividade de construção registou uma diminuição de 4,4% (crescimento de 5,7% no semestre), como resultado de um comportamento distinto entre seus componentes. Na construção pública se observou crescimento em edificações não residenciais e obras de engenharia civil. Na construção privada, ao contrário, observou-se uma redução na área efetivamente construída devido à diminuição nas áreas de serviço, indústria e residencial”.

PANAMÁ

Metro Panama

O setor de construção do Panamá teve suas atividades paralisadas no dia 25 de março, e embora algumas obras consideradas prioritárias tenham se reativado, apenas em setembro foi permitida uma reabertura mais generalizada.

O Índice Mensal de Atividade Econômica de maio de 2020 caiu 40,9% em comparação com o mesmo mês do ano anterior, enquanto o acumulado dos primeiros cinco meses apresentou uma diminuição de 13,9% comparado ao mesmo período de 2019.

Apesar destes números negativos, o Ministério das Finanças do país prevê que no ano que vem pode haver recuperação econômica de 4%. Para começar a realizar esta possibilidade, o país recém aprovou um orçamento de US$ 24,1 bilhões para o ano que vem, dos quais mais de US$ 7,7 bilhões serão destinados a investimentos públicos.

Dentre os projetos mais importantes para 2021, destaca-se a linha 3 do metrô da capital, cujas obras começariam no primeiro trimestre.

 

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