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O presidente da Terex Latin America, e gerente geral da marca Genie de plataformas aéreas, é Gustavo Faria. Nesta entrevista exclusiva à Construção Latino-Americana, ele abordou todos os aspectos do negócio de plataformas no país e mostrou otimismo. Para ele, o mercado superou o momento de disputa de preços e já dá sinais claros de crescimento. Segundo ele, se tudo andar como previsto, o Brasil pode sair da faixa de 30 mil máquinas para chegar a um mercado de 60 mil máquinas em cerca de quatro anos.

Entre outros pontos que alimentam esta perspectiva, a previsão de entrada de investimentos no Brasil em função das reformas promovidas pelo governo. Além disso, a reorganização da norma brasileira para uso de plataformas, que vai alinhar o país às normas ANSI (EUA) e CE (Europa) vai clarear a regra do jogo e dar nova forma ao mercado nacional. Confira a entrevista.

A guerra de preços na locação já passou?

Sim. Tínhamos um mercado em crescimento forte. Na hora em que veio a crise, sobrou muita máquina e depois da reexportação, boa parte ficou aqui. Aí os preços começaram a cair muito. Do ano passado para cá, o preço da locação da máquina começou a subir razoavelmente. Entre as elétricas, o preço da locação está entre 40% e 50% maior, comparado com 2018.

Genie Lift Connect

Genie Lift Connect

Isso já se reflete em entrada de máquinas no Brasil?

Sim, e de maneira forte. No ano passado entraram por volta de 1 mil máquinas, e esse ano vamos fechar com cerca de 2 mil máquinas entrando, isso em relação ao mercado total. De tudo isso que entrou, 65% são tesouras. Não podemos falar números do nosso market share, mas nas articuladas temos boa participação, e em tesouras a gente ficou um pouco para trás, principalmente por questão de preços. Mas no geral, não está longe do nosso objetivo.

A diversificação do mercado começou a acontecer?

Abriram-se novos nichos. Havia uma concentração de 80% do mercado em megaobras, com máquinas grandes. Como essas megaobras acabaram, a frota existente abastece isso. Mercado da indústria, manutenção industrial, companhias aéreas e outros setores, o foco hoje está aí. Esse é um mercado que usa muito máquina elétrica. E assim as tesouras começaram a ter uma demanda muito grande no Brasil, como acontece no resto do mundo. O nosso mercado de plataformas aéreas está atingindo uma certa maturidade. Antes era construção, hoje é indústria. Nas cidades, em hotéis, aeroportos, shopping centers, você já vê uma máquina aqui e ali em utilização.

Com o dólar a 4 reais, como está para vocês que são importadores?

O mercado de plataformas é basicamente de locação. A locação é uma atividade financeira. Se eu tenho 100 mil para investir, posso deixar no banco ou comprar máquinas. Se eu compro máquinas para alugar, a locação tem que reverter um lucro para mim que seja melhor do que deixar aqueles 100 mil no banco. Então as empresas vão se dispor a comprar máquina dependendo do valor que conseguem com a locação. Se o meu valor de locação continua subindo e eu tenho um porcentual interessante em relação ao valor de compra da máquina, eu vou comprar essa máquina pelo dólar que for. Se eu paguei 100 mil numa máquina e alugo ela por 6 mil, aí eu tenho 6% do valor numa locação mensal, vale a pena. Se o mercado estiver pagando só 2% do valor de compra, aí talvez não. A gente está num momento de inflexão, em que já vale a pena investir numa máquina mesmo com o dólar a 4 reais.

Gustavo Faria

Gustavo Faria

Por que 70% de taxa de utilização é o número ideal?

O número mágico é 70%. Hoje, as empresas estão com faixa de entre 60% e 65% de taxa de locação. E algumas estão acima dos 70%. Numa operação de locação de uma empresa madura que tenha cerca de 200 máquinas, as locações são spot (um mês, dois meses etc). Então você tem uma constante entrada e saída de máquinas. Dessas 200 máquinas, a gente estima que entre 10% e 12% estarão em manutenção. Além disso, é bom que você tenha entre 13% e 20% no estoque para quando alguém ligar você ter o equipamento à disposição. Se você não tiver, perde o cliente. E a locação de plataforma é muito dinâmica. É preciso ter uma frota que te permita ter como dar manutenção e ainda ter máquinas à disposição imediata.

Se as locadoras brasileiras operam a 65%, o mercado está recuperado?

Na minha visão, sim. Tanto que locadoras menores, que têm menos de 100 máquinas, estão com índice de locação de 80%, e por isso estão investindo. Locadoras maiores, com mais de 1 mil máquinas, estão com taxa de 60%. No caso delas, porque uma parte da frota não está disponível, são máquinas que ficaram em manutenção por muito tempo, ou porque são máquinas muito grandes que já não se aplicam muito.

E como está a América do Sul?

Estava tudo ótimo, até que o Chile entrou nessa crise e não conseguimos entender ainda muito bem. Um cliente de lá colocou um pedido de US$ 900 mil e um outro de mais US$ 500 mil. Mas a gente fica em dúvida. O cenário macroeconômico ainda reflete esta estabilidade do Chile. Mas para adiante, como será? Se eu puder apostar, acho que o país continua como estava antes. Na Argentina, a gente não tem uma participação de mercado muito boa, e o país não é um mercado muito atraente. Peru e Colômbia são países onde temos tido resultados bons, apesar de serem mercados pequenos.

Com relação a novas marcas no mercado, como vê isso?

Eu acredito que vamos ver outras marcas. A indústria chinesa tem feito um esforço muito grande. Precisam ainda aprender a trabalhar na cultura ocidental, mas vão chegar lá. Marcas do Canadá e dos EUA já estão aí. Uma coisa interessante do segmento de plataformas é que ele é cíclico. Muitas empresas sofreram, pois é um mercado intensivo de capital, tem que ter muito dinheiro para sustentar a operação. Uma fábrica como a Genie, que faz milhares de plataformas ao mês, nos dá esse conforto. A gente tem visto algumas marcas colocando prazos muito longos de financiamento, a fim de entrar no mercado. Qualquer dor de barriga o locador pára de pagar. Um dos receios que eu tenho é exatamente isso. A gente já viu esse filme antes. A Genie foi vendida para a Terex no seu melhor ano de vendas. Vender é uma coisa, receber é outra.

Genie Chile

E qual a meta da Genie?

Nos próximos três ou quatro anos eu projeto um crescimento interessante. Acredito que dentro deste prazo o mercado brasileiro dobra de tamanho, sai de uma frota de cerca de 30 mil para chegar a 60 mil máquinas. Lógico: se todos estes projetos que imaginamos realmente saírem, se estas reformas estruturais saírem. Tudo isto deve dar fôlego para investimento.