Passamos pelo pior? Com receita combinada de quase um terço do registrado em 2012, construtoras miram a recuperação. 

Não são boas as notícias trazidas pela presente edição do CLA50, ranking com as 50 maiores empresas construtoras com atividade na América Latina. Os faturamentos combinados desta meia centena de empreiteiras que atuam na região somaram US$ 26,69 bilhões, número 22% menor do que o registrado na edição passada. E o que é pior: 63,3% abaixo do pico alcançado na edição de 2013 (onde se perfilaram segundo os faturamentos de 2012).

CLA50

A pergunta que de imediato se faz é se o setor de construção da América Latina já tocou o fundo do poço. E mesmo que existam muitas esperanças de que sim, a situação real nas três maiores economias da região (Brasil, Argentina e México) não nos permite ser tão otimistas como desejaríamos.

Segundo o jornal argentino El Economista, 46,7% das empresas que realizam obras privadas acreditam que o nível de atividade do setor diminuirá, enquanto 63,6% daquelas dedicadas fundamentalmente à obra pública opinam que o nível de atividade diminuirá a partir do fim de 2018.

O panorama brasileiro tampouco é alentador, já que o PIB da construção retrocedeu 0,8% no segundo trimestre do ano, em comparação com os três primeiros meses do ano. Se se compara com o segundo trimestre de 2017, a queda é ainda maior, de 1,1%. Além disso, o investimento no setor da construção também está baixo, com quedas próximas a 1,8%.

Já o México, embora projete um crescimento de entre 1% e 2% para a indústria, também percebe dificuldades para o desenvolvimento do setor. Por exemplo, durante o segundo trimestre as obras de engenharia civil caíram 4,9% e completaram27 meses consecutivos de contração.

Neste contexto, é impossível prever o que será o ranking CLA50 do ano que vem.

Top 10

Os três primeiros lugares do ranking se mantiveram intactos. Com a questionada Odebrecht ainda à cabeça com faturamento em dólares de US$ 3,34 bilhões (44,2% menos do que em 2016), a maior construtora latino-americana é 50% maior do que a segunda colocada, mas agora vive muito abaixo do que costumava-se ver em anos anteriores. Antes, ela representava sozinha mais de 20% da receita total da lista. E apesar disso, hoje sua representatividade no ranking continua alta, com 12,5% de todo o faturamento combinado das 50.

É seguida pela chilena Sigdo Koppers, que ao longo de 2017 registrou receitas de US$ 2,2 bilhões, uma leve melhora com relação aos US$ 2,1 bilhões do ano anterior. Por sua vez, a peruana Graña y Montero, também mencionada na esfera internacional da Lava Jato, viu queda de 1,8% em suas vendas no ano passado, mas mesmo assim manteve sua terceira posição.

As brasileiras MRV Engenharia e Mendes Junior Engenharia trocaram de posição, a primeira aumentando seu faturamento em 12% e a outra com uma retração de 10,8%.

A saída da Andrade Gutierrez do Top 10, dada a diminuição de 62% em seu faturamento, e a retirada da mexicana ICA devido à sua reestruturação, renderam à chilena Salfacorp um avanço de dois pontos no ranking. Com vendas de US$ 1,02 bilhão, a construtora ficou em sexto lugar entre as maiores.

Em sétimo, encontra-se uma empresa que pela primeira vez se posiciona entre as dez principais, a portuguesa Mota-Engil. A construtora continua fortalecendo sua presença na região, e no ano passado faturou US$ 960,9 milhões na América Latina, registrando assim um crescimento de 37,3% em relação ao ano passado.

A oitava posição é da Carso Infraestructura y Construcción, que, apesar de uma redução de 9,8% no faturamento, conseguiu avançar uma posição, substituindo assim a ICA como a maior construtora mexicana.

A Construtora Queiroz Galvão, por sua vez, também diminuiu suas vendas de maneira considerável. A receita da empresa em 2017 ficou em US$ 721 milhões, 24,3% menos do que o registrado em 2016. Não obstante, ganhou uma posição e ficou em nono.

Quem fecha o Top 10 é a costarriquenha Constructora Meco, que com receitas de US$ 669,5 milhões conseguiu crescer cinco posições.

País por país

O Brasil continua dominando o ranking, mas a ninguém vai surpreender saber que a representatividade do país só cai, tanto em número de empresas como em receitas. As 17 construtoras listadas (uma a menos do que ano passado) somaram US$ 11,13 bilhões em 2017, 28,4% menos do que estas mesmas empresas haviam faturado no ano anterior. Assim, e pela primeira vez, a maior economia latino-americana contribuiu com menos da metade do faturamento total do ranking, fixando sua importância em 41,7%.

As quedas brasileiras foram drásticas. Já mencionamos os casos da Odebrecht, Construtora Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez Engenharia, empresas que reduziram suas receitas conjuntas em 44,6%, somando US$ 4,53 bilhões em 2017 contra US$ 8,18 bilhões em 2016.

Porém, se 13 das 17 empresas nacionais experimentaram contrações de um ano a outro, houve aquelas com melhor desempenho, provavelmente graças ao espaço deixado pelas companhias mais afetadas pela operação Lava Jato. É o caso da Trisul, por exemplo, que aumentou a receita em 46%, o que lhe valeu a incorporação no CLA50 no posto 44. Além disso, a segunda brasileira mais importante, a MRV Engenharia, teve crescimento de 12% e obteve faturamento de US$ 1,43 bilhão no ano de 2017.

Parte do que foi perdido pelo Brasil foi absorvida pelo Chile, país que este ano colocou 11 empresas no CLA50. É de se destacar a inclusão da Bitumix, empresa especialista em construção rodoviária que, com receitas de mais de US$ 154 milhões, ficou na posição de número 41.

Em sua totalidade, o Chile registra uma receita combinada de suas maiores construtoras de US$ 6 bilhões, abarcando assim 22,6% do total das 50 maiores que atuam na região. Um avanço de seis pontos porcentuais em relação à edição anterior.

O México se ressente da saída da ICA da lista, e perdeu seu terceiro lugar para o Peru, que com seis empresas ranqueadas registra faturamento combinado de US$ 3,38 bilhões, valendo 12,7% do total das 50.

Dentre as empresas peruanas, destaca-se o desempenho da Cosapi em 2017. As receitas da companhia alcançaram US$ 474,9 milhões, o que significa um imponente aumento de 64,9% em relação ao ano anterior. Isto se deveu a que todas as unidades de negócio da empresa cresceram ao mesmo tempo: engenharia e construção teve aumento de 41,9%, e os serviços mineradores da empresa subiram nada menos do que 335,5%.

Novas incorporações

Além da mencionada Bitumix, o CLA50 conta com outras novas empresas na listagem. Para a espanhola FCC, a CLA estima vendas na região de cerca de US$ 461,7 milhões. A empresa tem importantes projetos no Panamá, dentre os quais a Linha 2 do metrô da capital, assim como uma participação no sistema metroviário de Lima, Peru.

A Sacyr é outra empresa espanhola que potencializou muito a sua presença na região, com importantes projetos. A companhia gerou receitas de cerca de US$ 284 milhões na América Latina, e deve ter um bom 2018. No ano passado, a empresa já havia fechado grandes contratos de concessão, como os projetos rodoviários das Rutas 2 e 7 do Paraguai; a concessão do corredor Cúcuta-Pamplona, na Colômbia; e a ampliação de redes elétricas no Chile. Além disso, o grupo conseguiu suas primeiras concessões no México, uma rodovia e um hospital, em regime de PPP.

A quarta nova incorporação é a da brasileira Construtora Tenda, que percebeu um 2017 muito positivo, com receitas de US$ 410 milhões, 29% acima de suas vendas de 2016.

Evolução

É uma pena ter de reconhecer, mas a indústria da construção caiu muito forte, uma perda de valor tão forte que vai muito além de possíveis distorções como o refinamento na coleta de dados ou a variação do dólar.

Desde o pico de US$ 72,9 bilhões registrados no CLA50 de 2013 (baseados em receitas de 2012), as vendas das 50 maiores empresas com atuação na região caíram mais de 63%.

Metodologia

As posições do ranking CLA50 se baseiam nos faturamentos brutos convertidos a dólares dos Estados Unidos. Quando foi necessário, a taxa de câmbio usada para esta conversão foi a média das flutuações da moeda em questão ao longo de 2017.

A informação foi obtida de diferentes fontes, iniciando com a resposta de algumas das empresas a uma pesquisa feita pela Construção Latino-Americana (CLA), complementada com dados disponíveis em bolsas e superintendências de valores, contabilidades auditadas, declarações de empresas e de respeitadas organizações especialistas no tema. Em alguns casos, não foi possível contar com contabilidade auditada, ocasiões em que a CLA realizou uma estimativa de negócios baseada em dados de consultores e tendências da indústria.

Embora tenha-se feito o melhor esforço para que a informação desta reportagem seja a mais fidedigna e exata possível, a CLA não pode ser responsabilizada por possíveis erros ou omissões alheias a seu alcance.

Se algum leitor desejar comentar sobre o ranking publicado com as 50 empresas construtoras com maior volume de negócios, ou considera que sua empresa deveria ser incluída na listagem, solicitamos que contate o editor da CLA, Cristián Peters, no email: cristian.peters@khl.com.