Gustavo Gallino, diretor da Área Sul da Techint Engenharia e Construçãofala sobre as necessidades do país para um verdadeiro desenvolvimento industrial. Reportagem de Tomás Rodríguez, da Argentina.

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Gustavo Gallino, diretor da Área Sul da Techint Engenharia e Construção.

Com duas de suas empresas no top ten das maiores da Argentina, a Techint é o grupo industrial mais importante do país. A Tenaris (tubos de aço) e a Ternium (placas de aço) explicam o seu peso no mercado local, mas a Techint Engenharia e Construção é a base de tudo. Fundada pelo milanês Agostino Rocca como Compañía Tecnica Internazionale, a empresa começou prestando serviços de engenharia e de construção em 1945. Hoje, são cerca de 25.000 funcionários em todo o mundo e um faturamento anual ao redor de US$ 2 bilhões, com obras de energia, mineração, infraestrutura industrial, transporte, oil&gas e petroquímica.

Sua principal área de atuação é o Cone Sul (Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Peru e Equador) e, para entender o cenário, a Construção Latino-americana conversou com o engenheiro Gustavo Gallino, diretor comercial e de operações da região, em seu escritório em Buenos Aires.

A área sul corresponde a 60% da companhia a nível global, superando a área norte (México), o Brasil e as operações na Europa e Egito. Apesar do faturamento do último exercício (junho 2016-julho 2017) ter totalizado US$1,5 bilhão, ficando abaixo da média, 2018 promete ser um ano de crescimento.

Com cerca de 30 obras em andamento na área sul, o maior projeto deste portfólio é a transformação de Fortín de Piedra em reservatórios não convencionais de Vaca Muerta, no estado de Neuquén, onde atende à Tecpetrol, divisão petroleira da Techint. Se trata de um investimento total de US$2,5 bilhões de parte da companhia, com uma verba para infraestrutura de US$700 milhões.

Já no México, a Techint Engenharia e Construção está à frente da construção de uma central térmica com investimentos da ordem de US$600 milhões. E no Brasil, o mercado segue paralisado, com uma única exceção da construção da plataforma de petróleo offshore P76, projeto de peso junto com a Petrobras. E isso não é algo que surpreende a Technit. Boa parte do sucesso da companhia nas últimas décadas foi baseado na habilidade de expandir e contrair de acordo com as flutuações do mercado regional. A resistência, assim como no aço, também depende da elasticidade.

“Dentro do nosso setor, somos muito amplos”, explica Gallindo. “Estamos em todos os segmentos: oil&gas, tanto em downstream, midstream quanto upstream; obras de infraestrutura de todo o tipo (ferrovias, rodovias, edifícios complexos); energia térmica, nuclear e hidrelétrica; mineração (a última incorporação: o lítio). Dentro da engenharia e da construção, fazemos praticamente tudo que há para ser feito. E, ao contrário de outras empresas do ramo, nosso plus é que somos uma empresa de engenharia. Isso nos dá uma vantagem frente ao resto. Por isso, nosso forte fundamental são os projetos EPC: engenharia, compra e construção”.

Como foi a evolução do portfólio de projetos nos últimos anos?

Acredito que se manteve estável. Nos últimos 10 ou 12 anos, desenvolvemos poucos projetos na Argentina e, só recentemente, estamos retomando este mercado. Mas tivemos mais trabalhos no Chile, no Peru e no Equador. De alguma maneira, há um equilíbrio ao longo do tempo, e a nossa escala está na quantidade de projetos.

Por exemplo, hoje, o mercado peruano está um pouco encolhido e alguns projetos foram adiados. O Chile sofreu com a baixa do cobre e há pouco tempo retomou uma dinâmica onde podemos participar. No Equador, temos uma operação importante em andamento. Na Bolívia, a nossa atuação é mais pontual, com alguns projetos de engenharia; e o Uruguai se manteve estável.

A sua avaliação da atual situação argentina é positiva, então?

Sim, a Argentina tem um déficit de infraestrutura e isso fez surgir boas oportunidades nos últimos anos. Temos entrado em vários projetos e estamos participando da concorrência de outros, como as PPP (parcerias público privadas) dos novos corredores viários, que tem um trecho orçado em US$ 1 bilhão, o RER (Rede de Expressos Regionais), e o trecho Aña Cua, no estado de Yaciretá, etc.

Além disso, no Chile, participamos de um projeto com a Codelco; no Peru temos outras propostas; e no Uruguai, estamos concorrendo a uma obra da ferrovia de US$700 milhões.

O investimento público é o motor da construção na Argentina?

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Vaca Muerta, no estado de Neuquén.

No último ano, na construção, sem dúvida. No entanto, em energia e em oil&gas tem havido muito investimento privado. Nossa operação em Vaca Muerta é toda de capital privado. No geral, eu diria que se está gerando infraestrutura capaz de dar suporte a projetos privados do setor industrial. Quer dizer: sem energia e sem meios de transporte que permitam uma logística eficiente, não é possível ter investimento industrial. Isto é claríssimo.

Por isso, tudo o que está sendo construído vai ser a base para a geração de futuros projetos privados e, claro, os projetos estatais no modelo PPP. A ideia do governo é que esse mecanismo viabilize o retorno financeiro os projetos. As PPP não são todas iguais, mas é uma aposta interessante com riscos divididos entre o Estado e o setor privado.

Como funciona a logística da companhia?

Temos um centro logístico e um parque de máquinas em Pacheco, onde temos a base de administração dos nossos materiais e equipamentos (manutenção, reparo, etc). Também temos uma oficina de prefabricado de tubos que está em plena operação, atendendo o projeto de Fortín de Piedra. Dali, viabilizamos tudo para o mercado argentino. E também instalamos uma oficina de engenharia autônoma em Vaca Muerta.

Fora da Argentina, contamos com parques de máquinas no Chile, Equador, Peru e Uruguai.

A Techint foi impactada pelas políticas do presidente americano Donald Trump?

Nós não sofremos tanto porque não produzimos diretamente bens de capital de exportação. E estamos estabelecidos em todos os países onde operamos há muitos anos e, por isso, não somos considerados estrangeiros, Nos definimos como uma empresa multi-local com equipe local, com diretores locais. O grupo, de alguma forma, se adiantou à onda da globalização e, talvez agora também, a este momento de “des-globalização”.

Como você a concorrência com a China?

Os chineses ameaçam muito, mas atacam pouco. Acredito que eles tenham uma grande vantagem com as negociações de crédito país-país, onde conseguem alguma pré-venda para chegar com as suas empresas e equipamentos. Até agora, na Argentina, praticamente não há presença deles, com exceção da ferrovia em Belgrano. Eles acabaram de começar nas represas no sul e também contam com um convênio firmado para o desenvolvimento das centrais nucleares Atucha 3 e 4. Nós não temos problemas de trabalhar com os chineses. É claro que seremos muito zelosos como companhia, e também acredito que temos que ser como país, para manter as condições de competitividade e transparência, para que todos possamos competir com as mesmas armas.

Queremos que nos comparem com empresas que mantêm os padrões de segurança, qualidade e cumprimento de contratos. Nem melhores, nem piores; nem menores, nem maiores; simplesmente que se cumpram com esses padrões. E outra coisa importante é a mão de obra local. Nós não levamos argentinos para trabalhar nos países onde operamos. A mão de obra é sempre local. Essa é a nossa missão: gerar trabalho nos lugares onde nos instalamos.

Como foi o impacto da Lava Jato na indústria?

É óbvio que não foi nada bom. A indústria ficou um pouco manchada com o preconceito de que a construção sempre foi feita dessa forma, algo que não condiz com a realidade. Para mim, é correto que se investigue e que a justiça atue. Nós agimos assim internamente, com auditorias internas e nosso escritório de compliance. Para nós, é normal ser monitorado.

Como você descreveria a produtividade do trabalho na região?

Acredito que se perdeu muita produtividade e qualidade. O trabalhador argentino historicamente sempre foi de primeiro nível, especialmente na indústria de construção. Isso foi se deteriorando, ao mesmo tempo em que a Argentina enfrentava outros problemas na sua história recente. A produtividade caiu muito, enquanto os salários se mantiveram no mesmo patamar. Mas tenho confiança de que o cenário vai começar a mudar. Estamos trabalhando para voltar a ter trabalhadores do nível que já tivemos na Argentina.

E o custo da mão de obra?

A Argentina é um país mais caro, sem dúvidas. Mas com produtividade isso não deveria ser um problema. O que passa é que o custo da mão de obra está associado a muitas coisas: se o combustível é caro, o transporte é caro e a comida também. Os impostos, também. O custo da mão de obra é tudo isso, não apenas o salário. À medida que a Argentina for reduzindo alguns impostos distorcidos (sobre lucros, por exemplo), essa equação deve melhorar.

Em qual área a construção deve crescer mais próximos anos?

Necessariamente em infraestrutura e energia para que depois crescem as outras. A Argentina precisa industrializar o agro e, para isso, precisa de infraestrutura: portos, estradas, ferrovias e energia.